Dissertação versão final
SILVIO
HENRIQUE FERREIRA VILHENA
Mulheres de Barro: história e
educação patrimonial em Parauapebas-Pa
UNIVERSIDADE FEDERAL DO SUL E SUDESTE DO PARÁ (UNIFESSPA)
Junho / 2022
SILVIO HENRIQUE FERREIRA VILHENA
MULHERES
DE BARRO: HISTÓRIA E EDUCAÇÃO PATRIMONIAL EM PARAUAPEBAS-PA
Dissertação
apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ensino de História da Universidade
Federal do Sul e Sudeste do Pará, como requisito para a obtenção do título de
Mestre em Ensino de História.
Linha de pesquisa:
Saberes Históricos em diferentes espaços de memória.
Orientador: Prof.
Dr. Carlo Guimarães Monti.
XINGUARA-PA
2022
|
Dados
Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará Biblioteca Setorial Campus de Xinguara |
|
V711m Vilhena, Silvio Henrique Ferreira Mulheres de barro história e educação patrimonial em Parauapebas-PA / Silvio Henrique Ferreira Vilhena. — 2022. 103 f. : il. color.
Orientador(a): Carlo
Guimarães Monti. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal
do Sul e Sudeste
do Pará, Programa de Pós-Graduação em Mestrado Profissional em Ensino de História, Xinguara, 2022.
1. História (Ensino fundamental) - Estudo
e ensino. 2. História local - Parauapebas (PA). 3. Memória.
4. Patrimônio cultural - Amazônia.
I. Monti, Carlo Guimarães, orient.
II. Título.
CDD: 22. ed.: 907.2098115 |
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Elaborado por Maria José
Pereira da Silva
- CRB-2/1707 |
FOLHA DE APROVAÇÃO
MULHERES
DE BARRO: HISTÓRIA E EDUCAÇÃO PATRIMONIAL EM PARAUAPEBAS-PA
Banca
examinadora
____________________________________________
Prof.
Dr. Carlo Guimarães Monti (UNIFESSPA-Orientador)
_____________________________________________
Prof.
Dr. Alexandre Guilherme da Cruz
Alves Junior
(UNIFAP)
_____________________________________________
Prof.
Dr. Lelio Luiz Oliveira (USP)
_____________________________________________
Profa.
Dra. Anna Carolina de Abreu Coelho (UNIFESSPA)
XINGUARA/UNIFESSPA
2022
Dedico
este trabalho a todas as mulheres do Centro Mulheres de Barro que desempenham
com amor e dedicação a arte, cultura e educação patrimonial. Valorizando e
divulgando a história de Parauapebas.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus por todas as bênçãos que ele tem me dado e por
estar sempre comigo em todos os momentos da minha vida.
Agradeço a toda minha família, que sempre acreditou e me
incentivou a voar alto. Especialmente ao meu pai, que partiu, mas deixou a
maior e melhor herança possível: a educação.
Agradeço ainda a todos os colegas e professores do mestrado da
UNIFESSPA/Xinguara, cada ensinamento contribuiu muito para minha formação. E ao
professor Carlo Guimarães Monti, meu orientador, que sempre esteve disposto a
me auxiliar nesse percurso e me ajudou a chegar até aqui.
“O objetivo da
História escolar tem sido o de entender as organizações das sociedades em seus
processos de mudanças e permanências ao longo do tempo”
(BITTENCOURT, 2010, 186).
RESUMO
Esse trabalho é
uma reflexão sobre o ensino de história na cidade de Parauapebas – Pará.
Buscou-se contribuir com o ensino e aprendizagens do conhecimento histórico a
fim de despertar o interesse pela disciplina de história entre os alunos de
sextos anos da E.M.E.F. Carlos Henrique, principalmente sobre as questões
relativas ao currículo para esse ano de ensino, como: compreensões sobre
fontes, tempo/espaço, história e patrimônio local do munícipio de Parauapebas –
Pará. Analisou-se as possibilidades de aprendizagens significativas através do
trabalho, atividades e visitações do Centro Mulheres de Barro, que é uma das
principais referências para a educação patrimonial na cidade. A pesquisa
fomenta junto aos discentes o conhecimento dos conceitos de patrimônio,
educação patrimonial, arqueologia e história local entre outros, partindo dos
vestígios cerâmicos encontrados em sítios arqueológicos da Região dos Carajás,
buscando o reconhecimento da história de Parauapebas como uma história
multicultural e diversificada. O trabalho pretende desenvolver um produto
didático, que é um manual de apoio a visitação ao Centro Mulheres de Barro,
destinado a discentes, aos docentes de história e visa facilitar o acesso
destes ao centro. O guia foi pensado para auxiliar e conduzir as visitações a
esse espaço no processo de aprendizagens pretendidas, assim como, ao despertar para
a história, para os remanescentes arqueológicos, e às suas ressignificações por
meio da educação patrimonial desenvolvida no Centro Mulheres de Barro.
Palavras-chave: Ensino de
História, Educação Patrimonial, Espaço de Memória, Amazônia.
ABSTRACT
This work is a reflection about
teaching history in the town of Parauapebas, Pará - Brazil. It seeks to
contribute with teaching and learning historical knowledge, in order to
stimulate interest for the History subject among the students who are in the
sixth grade of E.M.E.F Carlos Henrique School, mainly when it comes to their
academic curriculum for this year of learning, such as: comprehension about
historical sources, space/time, history and local heritage of Parauapebas -
Pará. The significant learning possibilities were analyzed through work,
activities and visits to Centro Mulheres de Barro, which is one of the main
references for heritage education in this actual town. This work aims to
promote with students the knowledge of the heritage concepts, heritage
education, archeology and local history, starting based on findings of ceramic
elements in archeological sites of Carajás region, with the purpose of learning
Parauapebas history as a multicultural and diversified one. This work also
focuses on a didactic product development which is a support manual to
visitation of Centro Mulheres de Barro, it is destined for students, teachers
and educators of the History subject, due to its purpose of making the
experience completely full of historical learning. The guide aims to conduct
visits to Mulheres de Barro facilities, helping in the learning process, as
well as spreading awareness about Parauapebas - Pará history, throughout the
education heritage promoted in the environment of Centro Mulheres de
Barro.
Keywords: Teaching History, Heritage Education,
Memory Place, Amazon.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Imagem 1 - Fachada da E.M.E.F. Carlos Henrique................................................................. 30
Imagem 2 - Pátio interno da EMEF Carlos Henrique............................................................. 30
Imagem 3 - Área de realização dos estudos
arqueológicos: Floresta Nacional Tapirapé-Aquiri / Salobo, PA.................................................................................................................................................. 46
Imagem 4 - Bitoca: símbolo do projeto Mulheres de
Barro.................................................... 63
Imagem 5 - Significados da logomarca do Centro
Mulheres de Barro................................... 64
Imagem 6 - Imagem de satélite onde podemos localizar a
E.M.E.F. Carlos Henrique e do Centro Mulheres de Barro Fachada do prédio do
Centro Mulheres de Barro.......................................................... 66
Imagem 7 – Fachada do prédio do Centro Mulheres de Barro................................................ 67
Imagem 8 - 1 - Pequeno vasilhame cerâmico; 2 - Borda de vasilhame
cerâmico; 3 - Aplique modelado antropomorfo; 4 - Ponta de flecha............................................................................................ 69
Imagem 9 - Apliques modelados............................................................................................. 70
Imagem 10 - Vestígios Cerâmicos decorados......................................................................... 70
Imagem 11 -. Peças Contemporâneas com referência arqueológica da região
de Carajás...... 71
Imagem 12 - Imagem da atual divisão dos bairros da cidade de
Parauapebas........................ 83
Imagem 13 - Mapa do bairro Da Paz, Parauapebas - PA........................................................ 88
Imagem 14 - Localização da EMEF Carlos Henrique e a proximidade com o Mercado
Municipal onde fica o Centro Mulheres de Barro........................................................................................................ 88
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Com quem moram os estudantes da Escola Carlos Henrique............................... 32
Gráfico 2 - Famílias de estudantes da Escola Carlos Henrique que
recebem Bolsa Família.. 33
Gráfico 3 - Índices de proficiência por estudantes do 5° ano na
Escola Carlos Henrique...... 38
LISTA DE SIGLAS
BNCC Base Nacional Comum Curricular
PPP Projeto Político Pedagógico
IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional
LDB Lei de Diretrizes e Bases
CF Constituição Federal
FHC Fernando Henrique Cardoso
PCNs Parâmetros Curriculares Nacionais
UNESCO Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura
UNICEF Fundo das Nações Unidas para a Infância
MEC Ministério da Educação
EMEF Escola Municipal de Ensino
Fundamental
IDEB Índice de Desenvolvimento da
Educação Básica
INEP Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
PDE Plano de Desenvolvimento da Educação
SAEB Sistema de Avaliação da Educação
Básica
SPHAN Serviço Histórico e Artístico
Nacional
ICMBIO Instituto Chico Mendes de Conservação
da Biodiversidade
CAPS Centro de Atenção Psicossocial
SARS-CoV-2 Síndrome Respiratória Aguda Grave de
Coronavírus 2
OMS Organização Mundial da saúde
SEMED
Secretaria Municipal de Educação
PCB Partido Comunista Brasileiro
BASA
Banco da Amazônia S/A
SUDAM
Superintendência
do Desenvolvimento da Amazônia
CPT Comissão Pastoral da Terra
MST Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem-Terra
PGC Programa Grande Carajás
INESC Instituto de Estudos
Socioeconômicos
IRPJ Imposto de Renda de Pessoa
Jurídica
INCRA Instituto Nacional da Colonização e
Reforma Agrária
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística
PIB Produto Interno Bruto
AMZA Amazônia Mineração A/S
CVRD Companhia Vale do Rio Doce
PGC Programa Grande Carajás
GEAMAM
Grupo de Estudos e Assessoramento
Sobre o Meio Ambiente
CFEM Compensação Financeira pela Exploração Mineral
SUMÁRIO
Introdução................................................................................................................................14
CAPÍTULO - I........................................................................................................................ 21
Ensino de história: o exercício de ensinar na E.M.E.F. Carlos Henrique......................... 21
1.1 – Que história ensinar?................................................................................................ 21
1.2- A legislação e o currículo............................................................................................ 24
1.3- E uma escola é forjada a E.M.E.F. Carlos Henrique............................................... 29
1.4- Os índices avaliativos como reflexo das aprendizagens........................................... 36
CAPÍTULO - II....................................................................................................................... 43
O patrimônio cultural no ensino de
História....................................................................... 43
2.1 – Patrimônio cultural como fonte para o ensino de
história..................................... 43
2.2 – O ensino de História através da Educação Patrimonial........................................ 52
2.3- O plano de ensino de história municipal e o Projeto
Mulheres de Barro.............. 58
2.4 – Aulas no período pandêmico - Análise e reflexão................................................... 72
CAPÍTULO - III..................................................................................................................... 78
Região dos Carajás, povoamento e reflexos
oriundos da exploração mineral.................. 78
3.1- Uma história do que hoje é a Serra dos Carajás, surge
Parauapebas.................... 78
3.2- O minério de ferro que segmenta o espaço............................................................... 82
3.3 – Planejamento para o desenvolvimento e utilização do
Produto didático............. 90
Considerações
Finais...............................................................................................................94
Referências.............................................................................................................................. 97
Bibliografia..............................................................................................................................97
Fontes.....................................................................................................................................101
APÊNDICE A -
.....................................................................................................................103
Introdução
Sempre fui fascinado
pelas aulas de história. Entre os meus diversos professores e professoras,
quase todos me despertaram o interesse pela disciplina. Profissionalmente, no
início, acabei trilhando outra profissão, que por força do destino,
acidentei-me e precisei recomeçar. Retomei os estudos e tive a oportunidade de
cursar licenciatura em História na Universidade Estadual do Maranhão. Em
seguida, fui aprovado em um concurso que me trouxe para Parauapebas no Estado
do Pará, onde já leciono há 15 anos. Por opção e necessidade econômica,
trabalho com uma carga horária considerada grande, 200 horas/aula em
Parauapebas divididas em 3 escolas públicas de ensino fundamental, a Escola
Carlos Henrique (palco dessa pesquisa), Escola Paulo Fonteles e Escola Sandra
Maria, cada uma com as suas especificidades. Também ministro outras 100
horas/aula no município vizinho (35 km de distância) Curionópolis, na Escola
Juscelino Kubitschek. Essa cidade é conhecida pela famosa Serra Pelada,
destaque na história da extração de ouro no Brasil.
O programa de mestrado
profissional em ensino de história, ProfHistória, é um sonho almejado por mim
há tempos. Acompanho o desenvolvimento e os resultados desse programa desde o
seu início. Apesar de estar a bastante tempo longe da academia, com a oportunidade
oferecida pela UNIFESSPA-Xinguara, pude realizar esse sonho, ao ser aprovado em
2020 para a primeira turma de mestrado do ProfHistória da UNIFESSPA. Pelas
pesquisas desenvolvidas no programa e com os produtos resultantes é evidente a
contribuição que o ProfHistória traz ao ensino de história. Esse aprendizado
vai auxiliar nas minhas aulas, destacando a importância da história local que
muitas vezes é desconhecida ou apresentada de forma equivocada aos estudantes.
Para isso, esta pesquisa
traz uma abordagem da história de Parauapebas desde os primórdios até o
presente. Destacando a sua rica história arqueológica, ainda desconhecida da
maioria dos estudantes, passando pelos processos de migrações do local onde
está localizada a cidade até a atual conjuntura de local de exploração mineral
reconhecido mundialmente e todos os contrastes consequentes. Para esse
propósito utilizaremos o patrimônio histórico arqueológico local, como fonte de
conhecimento, reflexão e ensino de história.
Parauapebas é a terra de
oportunidades que atrai pessoas de todos os lugares do Brasil. Uma cidade que
tem “[...] tanta riqueza no seu subsolo e tanta pobreza sobre ele” (COELHO,
2015, p. 151-152), resultado da exploração mineral na Serra do Carajás. Cidade
que muitas vezes é identificada, por desavisados, como “não tendo cultura” ou
“não tem história”, isso também se reflete na sala de aula entre os estudantes.
Tal equívoco, acaba muitas vezes se reforçando dentro da escola, justamente no
espaço em que deveria ser quebrado esse estereótipo. Através dos contextos e da
forma de abordagens dos conteúdos nos livros didáticos e do próprio currículo,
que minimizava ou até mesmo excluía a história local.
Somando-se à estas
discrepâncias, temos as dificuldades de aprendizagens em História comuns as
turmas de sextos anos. Acarretadas pelo impacto ocasionado pela mudança de
dinâmica de ensino fundamental menor para o maior, e um período decisivo no
despertar cognitivo das crianças. Tal passagem é geradora de inquietação, com a
oportunidade do mestrado do profhistoria, dediquei-me a refletir sobre caminhos
que possam amenizar esses efeitos e tornar as aulas de história para esses
estudantes mais atrativa e fascinante.
Essa pesquisa decorre da
prática de aulas de história nos sextos anos, da Escola Municipal Carlos
Henrique. Essa que é uma das primeiras escolas da cidade, onde leciono desde
2008. A escola está localizada em um dos bairros mais antigos da cidade, o
bairro Da Paz, que fica apenas há algumas quadras do “Centro Mulheres de
Barro”, que é referência de educação patrimonial na cidade e, ao mesmo tempo é
tão desconhecido da maioria dos habitantes e estudantes da comunidade escolar e
de toda a cidade.
Entre as minhas
experiências docentes, percebo que o romper com as aulas tradicionais da sala
de aula frontal composta por alunos (as), professor, quadro e livro didático,
possibilita envolvermos mais intensamente os estudantes, e um número maior de
participantes ativos. Ao rompermos com esse tipo de aula, na maioria das vezes,
geramos resultados mais satisfatórios do que aquelas pautadas em repetições.
Por isso, esse trabalho dedica-se a outras formas de se ensinar a disciplina em
questão, utilizando os primórdios
da história por meio intermediado da riqueza patrimonial
material/arqueológica. Mostrando uma história local com uma temporalidade mais
dilatada, do que a maioria dos habitantes da cidade conhecem. Buscamos
trabalhar, dentre outros conteúdos, a questão da temporalidade entre o passado
longínquo e, as suas representações no presente por meio dos objetos
reproduzidos pelas mulheres que organizam o Centro Mulheres de Barro.
Sendo assim, essa
pesquisa tem como objetivo geral refletir e ensinar sobre memória e a história
dos primórdios até o presente do município de Parauapebas, estado do Pará,
através do estudo do patrimônio histórico trabalhado no Centro Mulheres de
Barro, com o intuito de dialogar com o conhecimento histórico, com fontes
históricas, com a noção de tempo/espaço e patrimônio atrelado as aulas de
história para o 6° ano.
Como objetivos específicos, pretende-se abordar
as várias temporalidades da história através do projeto do “Centro Mulheres de
Barro”, assim trabalhar como esse projeto pode ser apropriado pelos discentes e
auxiliar na construção do conhecimento histórico local. Analisar o que tem sido
discutido e trabalhado sobre patrimônio e a história, contrastando com a
prática do ensino local no 6º ano do ensino fundamental. De tal modo buscamos
situar a educação patrimonial como ferramenta de potencialização do ensino de história,
através do contato com vestígios do passado. Optamos em trabalhar com a turma
do 6º ano também, por serem crianças da faixa etária entre 11 e 12 anos, e que,
normalmente apresentam dificuldades de compreensão de temporalidade e
espacialidade.
A pesquisa será desenvolvida através de
consulta e estudos de diversas fontes históricas relacionadas ao patrimônio
histórico da cidade de Parauapebas, como por exemplo os livros: “Escritores
Populares Locais, Histórias de Parauapebas, Memórias e identidades” e “À Margem
do Projeto Ferro Carajás: Uma pequena contribuição à história social e cultural
de Parauapebas (1980-2004)”, ambos do autor Avone José Araújo Rocha, assim
como buscamos outros autores da cidade,
que narram sobre essa perspectiva da pesquisa. Também pesquisamos na
‘Casa-Livraria’, local recentemente inaugurado, idealizado pelo professor de
história da rede municipal e escritor José Avone. Localizada na Feira Municipal
do bairro Rio Verde. Essa mesma feira, fica próxima a Escola Carlos Henrique,
em que estará sendo aplicada a pesquisa. É frequentada pelos pais, alunos e
comunidade escolar de modo geral.
Esse estudo oferece um enfoque principal ao
referido Centro Mulheres de Barro, como grande exemplo de preservação,
valorização e disseminação da importância do patrimônio artístico, cultural,
material e histórico da cidade de Parauapebas. Combinando com um conjunto de
fontes documentais e visuais, para registro e utilização no produto final.
Levando os discentes a conhecerem os conceitos de patrimônio, identidade,
história local e regional entre outros, através desse patrimônio histórico de
vestígios cerâmicos encontrados em sítios arqueológicos da região dos Carajás,
local onde se encontra a cidade de Parauapebas. Tais abordagens são possíveis
por meio da interação direta com o “Centro Mulheres de Barro”.
A pesquisa é exploratória, já que foi
trabalhada também através de bibliografias e narrativas referentes ao tema,
utilizamos como base a compreensão da temática, o conceito de educação
patrimonial defendido por Horta, Grumberg e Monteiro (1999) que enfatiza a
educação patrimonial como um “instrumento de alfabetização cultural”,
considerando que esse ensino proporciona a compreensão do universo
sociocultural que rodeia os discentes. Deixando dessa forma, o ensino de
história para os alunos, crianças do 6° ano do ensino fundamental, bem mais
atrativo.
É bastante perceptível em sala de aula, que os
alunos do ensino fundamental despertam maior interesse em aprender com o que é
palpável, visível aos olhos deles. Aulas com o uso da cerâmica, por exemplo,
podem servir como instrumento de educação patrimonial, relacionando os objetos
com os conteúdos a serem ministrados. E dessa forma proporcionar a
alfabetização cultural e consequentemente um interesse maior pela história.
Dessa maneira, esse estudo possibilita uma
reflexão sobre o ensino de história, abordando as concepções trazidas por Bittencourt
(2011), Gil (2017) e Prost (2008). Com o intuito de relacionar as discussões
com a realidade local do nosso município, e principalmente da escola trabalhada
nessa pesquisa. Visando perceber o entrelace do conhecimento acadêmico com o
ensino de história no espaço escolar.
Pretendemos trabalhar com o conhecimento
histórico junto aos discentes do 6º ano da Escola Municipal Carlos Henrique de
Parauapebas-Pará, por meio de um produto didático final que seria a princípio,
um aplicativo educacional pedagógico, com o objetivo de facilitar as
aprendizagens acerca da importância do patrimônio. Porém, foi observado através
das necessidades de aulas on-line durante a pandemia do covid-19, que a grande
maioria dos discentes da escola, não tem condições financeiras de obter
recursos tecnológicos como celulares e computadores, necessários para acessar o
aplicativo. Atendendo a essa restrição e seguindo as orientações da banca de
qualificação do mestrado, a produção do produto final foi redirecionado a
construção de um manual de apoio[1] à
visitação ao Centro Mulheres de Barro.
Sinteticamente
esta dissertação utilizou como metodologia a observação das dificuldades de
aprendizagens e até mesmo desinteresse dos alunos e alunas de sextos anos no
ensino de história em Parauapebas, seguido de um estudo bibliográfico do
problema e encaminhando-se para um levantamento de hipóteses que podem
solucionar esse déficit e alcançar os objetivos de aprendizagens pretendidos.
Infelizmente, por conta da pandemia do covid-19, não foi possível ainda a
experimentação do produto e consequentemente a análise dos resultados.
Entretanto, embasado no estudo bibliográfico e nas diversas análises e
reflexões feitas, tudo indica a positividade do que foi almejado.
No primeiro capítulo trabalhamos
o que é mais aspirado no mestrado profissional[2] do ProfHistória, que é o
ensino de história e todas as suas possibilidades de desenlace. Para isso,
trago algumas reflexões embasadas nas contribuições de Circe Bittencourt (2011)
e Antoine Prost (2008), a questão do historiador sobre um determinado documento,
entre outros autores. Desde a trajetória do próprio ensino até a importância da
história local como ponto de partida para o conhecimento histórico. Que
história ensinar? O que é mais relevante a ser trabalhado em um universo
gigante de conteúdos? Questões consideradas primordiais no meio escolar, mas
que perpassam por outros embaraços, como a questão da legislação e do
currículo.
A própria BNCC, preconiza
o uso de fontes materiais como recursos para a aprendizagem histórica. “[…] o
objeto histórico transforma-se em exercício, em laboratório da memória voltado
para a produção de um saber próprio da história” (BRASIL, 2017, p. 396). E isso
é reforçado no PPP da Escola Carlos Henrique: “[...] o compromisso da
valorização da cultura, da igualdade, ética e solidariedade, oferecendo aos
alunos o saber social relevante no âmbito regional e nacional, como também do
patrimônio universal da humanidade [...]” (E.M.E.F. CARLOS HENRIQUE-PPP, 2018,
p. 33).
Ainda no capítulo
inicial, trazemos uma reflexão sobre os índices de aprendizagens da escola
pesquisada e seus reflexos nas aprendizagens dos discentes dos sextos anos,
turma foco dessa pesquisa, por ter em seu conteúdo os tempos históricos, o
trabalho com os espaços de memória e com o patrimônio. Assim como, buscamos
aprendizagens significativas e envolventes que possam aproximar mais os
estudantes do ensino de história.
No segundo capítulo dessa
dissertação, abordamos o tema principal da pesquisa que é o uso do patrimônio
cultural no ensino de história. Contribuições e importância desse recurso para
as aprendizagens em história. Principalmente no que concerne os conteúdos
iniciais dos sextos anos. Buscando uma junção com a história local da
microrregião de Parauapebas. Utilizando-se do conceito trabalhado pelo IPHAN,
“Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e
imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à
identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade
brasileira [...]” (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988, ART. 216). Tomando dessa forma o
patrimônio como uma fonte de conhecimentos a ser explorada e utilizada na
construção do conhecimento histórico.
A pesquisa ainda indica
possibilidades de se ensinar história através da educação patrimonial. “[...]
um processo permanente e sistemático de trabalho educacional centrado no
Patrimônio Cultural como fonte primária de conhecimento e enriquecimento
individual e coletivo” (HORTA; GRUMBERG; MONTEIRO, 1999, p. 4). As evidências
arqueológicas encontradas e citadas nesse trabalho, são possibilidades do
desenvolvimento desse trabalho educacional/pedagógico em Parauapebas. Um
caminho díspar que se pretende atraente para que as crianças consigam despertar
o interesse pelos conteúdos e pela riqueza histórica dos primeiros habitantes
da região.
Essa esperada
sensibilização e interesse dos estudantes pelo ensino de história pode ser
concretizada através da prática da educação patrimonial. Passado delimitado por meio da
arqueologia no estudo do espaço mulheres de Barros. Essa
relação do centro com o currículo municipal também é analisada no segundo
capítulo, mostrando a viabilidade da pesquisa e do seu produto, como
contemplação de perspectivas de aprendizagens previstas nos documentos
curriculares em voga no município. Nesse mesmo capítulo, apresentamos o Centro
Mulheres de Barro, assim como o conjunto de mulheres que a compõem. O papel
educacional desse centro, as suas ações, o que é feito, qual as contribuições
para a cultura local, são pontos abordados nesse capítulo, em especial buscamos
relacionar a proposta de educação patrimonial desenvolvida no Centro com aquela
trabalhada na escola.
Em meio a todas as
dificuldades e possibilidades do ensino de história em Parauapebas, eis que no
início de 2020 surge uma grande crise de saúde pública, a pandemia do Covid 19.
E o capítulo II encerra abordando as consequências irreparáveis dessa crise
sanitária, também para o processo de ensino e aprendizagem. Assim como
abordamos manobras realizadas pelos órgãos educacionais e pelos docentes, que
se reinventaram para tentar não só se adequar à nova realidade, tanto quanto
para garantir as aprendizagens mínimas necessárias em cada ano escolar.
Ainda na pesquisa, é
realizada uma análise acerca dos empecilhos observados para o ensino de
história nas turmas de sextos anos, que são os conteúdos da chamada
“pré-história”, as evidências humanas antes dos registros escritos. E quando
falamos da existência dos seres humanos há milhares de anos atrás, e da
história contada através de vestígios arqueológicos, muitos estudantes chegam
até a duvidar da veracidade dessas histórias, por ser algo distante tanto no
tempo, quanto de sua ocorrência espacial, já que os livros didáticos abordam
áreas e populações de outros continentes que não o americano e muito menos o
espaço amazônico.
A história arqueológica
de Carajás e da microrregião de Parauapebas, mostrada através dos vestígios
encontrados e replicados no Centro Mulheres de Barro. E o contato com esses
objetos, patrimônios e culturas, facilita a compreensão e aprendizagem sobre um
tempo distante, mas que dá conta da mesma espacialidade em que vivemos, são
culturas de populações americanas e amazônicas.
O trabalho segue as
etapas migratórias desde os primeiros habitantes, até o despertar das
atividades de mineração. Que acaba por trazer várias consequências, não só
ambientais, más também sociais, como a própria segmentação do espaço gerada
pela exploração mineral e as discrepâncias econômicas resultantes do “Grande
Projeto Carajás”.
A pesquisa apresenta a
Escola Carlos Henrique, palco de todas as inquietações que nos levaram a esse
estudo. À essa inquietude é que propomos esse material, resultante da passagem
pelo programa de pós-graduação do ProfHistória, um manual de apoio à visitação
ao Centro Mulheres de Barro. Um projeto que acredita no potencial do patrimônio
cultural local como possibilidade de instrumento de construção do conhecimento
histórico.
Esse produto didático
final do ProfHistória é resultante de toda a pesquisa e estudos concernentes a
temática proposta e tem como função auxiliar, divulgar e dinamizar as visitas
ao Centro Mulheres de Barro. Foi pensado e elaborado no formato de manual/guia
para que todos possam se interessar pelo trabalho educacional do Centro e
sintam-se atraídos, visando assim, um maior divulgação e interesse pela
importância da educação patrimonial em Parauapebas. "Buscamos um
conhecimento que possa ser disseminado, analisado e utilizado por outros
profissionais dessa área nos diferentes contextos em que são mobilizadas
diferentes formas de representação do passado." (https://profhistoria.ufrj.br/estrutura_curso).
O manual também conta um
pouco da história do Centro e das mulheres “empoderadas” que trabalham lá,
assim como, as ações do Centro, a ressignificação dos objetos cerâmicos ali replicados.
Ainda aborda, a arqueologia da Região de Carajás, ensino de história e educação
patrimonial. Um material que deve ser lido, utilize-o para preparação no ensino
de história e para a visita ao Centro. Leia, aprecie, divulgue!
Ensino de história: o
exercício de ensinar na E.M.E.F. Carlos Henrique
As análises que abordam o
ensino de história tem sido uma constante dentre os pesquisadores da área.
Assim, há a necessidade de uma reflexão acerca do tema, pois é necessário saber
qual o papel do ensino de história na atualidade. Existe, hoje, um número
expressivo de pesquisas e publicações especializadas sobre o assunto, todas
refletindo diversas análises e abordagens sobre o tema. Nesta parte do trabalho
buscamos abordar as pesquisas feitas a partir dos anos 1980 com as
contribuições de Bittencourt (2011), Gil (2017) e as percepções e contribuições
feitas por Prost (2008), fazendo uso das reflexões feitas por ele no livro Doze
lições sobre a história, no que concerne o capítulo que discute a questão do
historiador sobre um determinado documento. As reflexões dessa trajetória do
ensino de história, suas problemáticas e avanços, visa perceber a trama do
conhecimento acadêmico e a forma de ensinar a disciplina no espaço escolar.
Segundo Bittencourt “O
ensino da História, incluindo as análises sob perspectivas históricas, passou a
fazer parte das pesquisas criadas em meio aos debates sobre as reformas
curriculares que, então, ocorriam em vários estados do país” (BITTENCOURT,
2011, p. 85). Esses debates, desde então, tem sido uma constante na busca de
encontrar ou selecionar, perspectivas do ensino para reformulação de currículos
escolares que reflitam diretamente sobre o trabalho dos professores e em
intenções governamentais de articulações para as políticas públicas. Enquanto
no artigo “Abordagens Históricas Sobre a História Escolar” (BITTENCOURT, 2011),
refletiu sobre 110 teses e dissertações, considerando também, as investigações
relativas a história dos livros didáticos e dos professores de modo geral, ao
trazer estes dados indicou um número limitado de trabalhos entre os anos de
1988 a 1996, enquanto a partir de 1997 indica um crescimento nos números dos
trabalhos sobre a história do ensino de história.
Entre os avanços do
ensino de história, podemos destacar na década de 1980, a reintrodução da
História e Geografia substituindo os Estudos Sociais, imposto pela Lei
5.692/1971. Quando surgem novas inquietações: o que ensinar nos novos
currículos? Que perspectivas e abordagens históricas utilizar? Como contemplar
nesse ensino histórico/escolar as defesas democráticas de Paulo Freire e Darcy
Ribeiro de uma ‘escola para todos’?
No decorrer dos debates,
em torno da discussão dos novos currículos, questionava-se, ainda, as
abordagens metodológicas que seriam mais dinâmicas, a questão da história
tradicional visando a criação de uma identidade nacional, e ainda o estudo da
história como conhecimento humanístico ou instrumento ideológico para uso
político.
A partir da década de
1990, surgiu um aumento expressivo dos cursos de pós-graduação, possibilitando
o crescimento das pesquisas na área de História e educação em geral. Políticas
públicas como a nova LDB (Lei de Diretrizes e Bases) 1996, baseada na
pluralidade cultural brasileira. Mas ainda permanecendo o desafio de relacionar
e aproximar o conhecimento acadêmico histórico e o escolar. “A partir das
Diretrizes Curriculares (2003) para o ensino de história e cultura afro-brasileira
e africana, foram colocados no centro do debate conceitos de etnia, raça,
identidade racial, racismo, pluralidade cultural”. (BITTENCOURT, 2011, p. 95).
Inclui-se também o estudo das populações indígenas, Lei 11.645/08.
As
fases conturbadas dos períodos das reformas curriculares são recuperadas no
sentido de identificar os conflitos e as disputas inerentes à legitimação de
determinados conhecimentos a serem disseminados pela escola. Desta forma, as
pesquisas sob perspectivas históricas têm buscado subsidiar debates atuais
sobre as dificuldades e os impasses na constituição de uma história nacional
que se renova quanto aos diferentes sujeitos na constituição da história do
país, dos compromissos com a constituição de identidades plurais e significativas
para o conjunto da sociedade.
(BITTENCOURT, 2011, p. 96).
É necessário dinamizar
essas discussões concernentes a problemática indicada, assim como propor
reflexões favoráveis às soluções que possam amenizar situações conflituosas,
que acabam por prejudicar todos os sujeitos envolvidos. Esses muitas vezes
prejudicados pela relação do currículo com o poder, que desconsidera as
experiências dos estudantes, a sua realidade sociocultural e da comunidade em
que a escola está inserida. Essa relação muitas vezes deixa de atender as
necessidades de aprendizagens dos estudantes, para favorecer outros interesses.
De fato, o currículo sempre esteve ligado ao poder,
mas, felizmente, o professor de história em sala de aula ainda tem alguma
autonomia de selecionar e trabalhar com uma perspectiva diferente. E uma das
possibilidades de se fomentar o ensino de história é através do trabalho com a
história local.
A regionalização da história como forma de construção de memória e identidades.
“A História Regional e Local permite a inserção e o relacionamento do aluno na
comunidade da qual faz parte, favorecendo a criação de sua própria
historicidade e identidade” (SCHMIDT; CAINELLI, 2009, p. 139). Em muitas
sociedades essa ausência é percebida nos currículos, debates e no processo de
ensino no ambiente escolar. A falta de reconhecimento e identificação com o
local de vivência, pode também ser consequência desse desconhecimento
histórico.
Para Lara Ximenes, 2008 a
escolha de outros espaços de produção de conhecimento, alargando a visão de
história e aproximando experiências vividas propiciam a emergência da
diversidade cultural local, trazendo sentido à própria história, e, por
conseguinte, fazendo com que o aluno e toda a comunidade percebam que são
sujeitos históricos do seu próprio tempo.
Todo esse debate nos faz
refletir ainda mais sobre as aprendizagens de história na escola,
principalmente nas turmas de 6º ano, em que as crianças iniciam o ano com os
conteúdos básicos como por exemplo: O que é história? Para que serve? Qual o
papel do historiador? O que são e quais os tipos de fontes? Questões também
sobre temporalidade e espacialidade. Tudo isso é fundamental para o
entendimento da disciplina de história, sua compreensão e quiçá o encantamento
dos discentes pela história.
A ação docente no âmbito
escolar e acadêmico tem sido tema de debates e pesquisas, mais amplamente
estudados nos cursos de pós-graduação, como por exemplo o ProfHistória, que tem
como intenção, além de formação continuada de professores da História, a aproximação
entre os saberes acadêmicos e a sala de aula. Levando em conta todo o arcabouço
necessário para a concretização dessas práxis, como teorias, metodologias,
conceitos e produtos que possam contribuir com essa aproximação.
Nesse sentido, o professor
de história tem que ser o articulador dos saberes históricos a serem
trabalhados, considerando que ele é o autor de suas aulas. Independente das
orientações, currículos e materiais sugeridos, ou impostos. É a sua intervenção
que pode se concretizar na aprendizagem histórica em todas as dimensões
almejadas.
“O conceito de cultura
escolar nos remete às práticas, aos sujeitos e à materialidade da escola”
(CHERVEL, 1990), ressaltando que há avanços, porém, existem permanências.
Contudo, é notória a percepção de inúmeros desafios ainda a serem superados,
mas com essa abordagem percebe-se que a história como disciplina tem se
constituído como objeto de ensino, construção e conhecimento no ambiente
escolar. E que essa História escolar como campo de conhecimento tem rompido
também os muros das escolas através das experiências do mestrado profissional.
Com proposições disponíveis à aplicação e/ou adaptação em diversos ambientes de
aprendizagens.
Assim, acreditamos que o
ensino de história deve dialogar com as comunidades através do reconhecimento e
do se fazer reconhecer dos sujeitos históricos integrados a uma comunidade
educativa. As perspectivas e abordagens da História Escolar tem sido campo de
pesquisa e o professor pesquisador encontra espaço para socializar e ampliar
suas experiências somando ao conhecimento acadêmico.
O
mestrado profissional em História está intimamente ligado ao ambiente escolar,
a localidade, ao chão dessa instituição. O que permite observar os problemas,
dificuldades e questões históricas locais. Isso possibilita uma articulação
entre a formação docente, o conhecimento científico e a cultura escolar. É
exatamente essa a perspectiva dessa pesquisa, refletir sobre a temática do
ensino de história através da educação patrimonial essa é a história que
queremos ensinar. Porém, existe uma outra questão que também é bastante
relevante e influente para o ensino de história, que é o currículo. Bases,
diretrizes e legislações, norteiam o trabalho nas escolas e a labuta dos
docentes nas salas de aulas. Além do conhecimento científico e escolar,
precisamos compreender também como funcionam essas “orientações”.
1.2- A legislação e o currículo
Para o ensino nas
escolas, os professores e professoras precisam seguir normas, diretrizes,
parâmetros e orientações curriculares que direcionam o ensino de história e das
demais disciplinas escolares. Para se trabalhar com educação patrimonial,
precisa-se analisar as orientações curriculares e as perspectivas sobre esse
tema. Documentos, como a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) por exemplo,
determinam quais conteúdos devem ser trabalhados na escola e, o que se deve
esperar de aprendizagens, selecionando o que consideram mais importante para a
vida escolar dos estudantes. Porém, essas orientações demonstram claramente uma
forte imposição do Estado.
A BNCC, começou a ser
elaborada em 2014 e foi homologada em 2017. Porém, a discussão sobre
norteamento do que deve ser ensinado nas escolas, já era interesse
governamental há muito mais tempo. Como nos mostra Francislaine Carniel,
A nossa atual Constituição da República Federativa do
Brasil de 1988 prevê que a educação é um direito de todos, sendo dever do
Estado e da família. Desse modo, o Art. 205 e Art. 206 compreende que é
importante enfatizar a igualdade de condições para permanência na escola; a
liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento; o direito ao
pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, se comprometendo a oferecer
ensino público gratuito. (CARNIEL, 2019, p. 1)
Percebe-se então, que o
documento máximo da nação já traz essa preocupação do ensinar nas escolas
brasileiras. E quando se trata de disciplinas da área das ciências humanas,
isso é bem mais preocupante. No Art. 210, isso é bem mais perceptível. “Art. 210 Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental,
de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e
artísticos, nacionais e regionais. ” (BRASIL,
CF, 1988, art. 210). O próprio conceito de “fixar” já tem o sentido de prender,
ou seja, cravar, pregar, tornar fixo o conteúdo a ser ministrado. Contradizendo
as especificidades e necessidades locais e multiculturais do nosso país. Apesar
de preceder uma formação básica de qualidade, desconhece as realidades da
imensidão territorial do Brasil. E se reflete na criação de outros documentos
que vieram depois, como a LDB, considerada uma
das mais importantes leis brasileiras referentes à educação.
A LDB (Lei de Diretrizes
e Bases da Educação Nacional), teve sua primeira versão promulgada em 1961. Já
a LDB 9394/96, também conhecida como Carta Magna da Educação, foi aprovada em
dezembro de 1996, após um longo embate que iniciou em 1988. Uma disputa entre
duas propostas: a primeira envolvendo a sociedade através de debates e fóruns,
e a segunda elaborada por senadores e apoiadas pelo governo de FHC (Fernando
Henrique Cardoso), que acabou vencendo. Mas acabou trazendo algumas
“garantias”, como a obrigatoriedade e gratuidade do ensino fundamental com
qualidade. E ainda a valorização dos profissionais da educação. Conquistas que
infelizmente, muitas vezes não são proporcionadas pelos governantes.
No que concerne ao estudo do patrimônio, a LDB,
excetuando as vezes em que se refere ao patrimônio econômico de instituições,
somente se expressa no capítulo IV Art. 43, § IV - “[...] promover a divulgação de conhecimentos culturais,
científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o
saber através do ensino, de publicações ou de outras formas de comunicação.
” (LDB, 2005, p. 21) como finalidade da educação superior. Ignorando toda a
importância e necessidade desse conhecimento desde os anos iniciais do ensino
fundamental.
Além da Lei de Diretrizes
e Bases da Educação Nacional, foi criado como um outro instrumento de controle
e direcionamento da educação escolar, os PCNs (Parâmetros Curriculares
Nacionais). Resultado da “Conferência Mundial sobre Educação para Todos”,
convocada pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência
e a Cultura) e UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) em 1990, com a
participação do Brasil. Em 1998 o MEC publicou os PCNs para as turmas de 5ª a
8ª série. Joana Neves adverte:
[...] os documentos elaborados para os PCN atenderam a
orientações de política educacional que, claramente, remetem para exigências de
órgãos internacionais, financiadores da educação. Não é intenção fazer
trocadilho infame, mas o fato de os PCN estarem de acordo com orientações de
organismos internacionais como a UNESCO, não é gratuito (NEVES, 2000, p. 61).
Os PCN’s são um extenso
documento no qual a palavra “patrimônio”, dentro do PCN de 5ª à 8ª série, só
aparece uma única vez como um dos objetivos no qual os alunos sejam capazes de:
“[...] conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro
[...]” (PCN, 1997, p. 6). Uma estrutura organizacional que demonstra imposição,
não levando em consideração as realidades locais dos alunos e alunas, e
homogeneizando o ensino de história. Ou seja, os PCNs também não contemplam as
necessidades do processo de ensino e aprendizagem de história dentro da
multiculturalidade do nosso país.
Quanto a BNCC, que é o
mais atual documento que norteia o ensino em nosso país, apesar de todas as
críticas que vem sofrendo, continua sendo o instrumento governamental em voga
que normatiza e seleciona arbitrariamente as aprendizagens consideradas
necessárias para a educação básica no Brasil.
Conforme
a linha do tempo no próprio site do MEC (Ministério da Educação), antes que se
chegasse na sua versão final, esse documento passou por várias versões em sua
elaboração. Primeira versão em 2015, segunda em 2016, e se concretizando
finalmente em dezembro de 2017. Com inserção do ensino médio em 2018. É
importante ressaltar que:
Não podemos deixar de mencionar que o processo de
criação do documento passou por diversas mudanças de governo, inclusive o
impeachment da presidente Dilma Rousseff, colaborando para as mudanças de
ministros da educação e da equipe de elaboração da BNCC, de tal modo que, as
mudanças entre as versões do documento são notáveis e criticadas, pois não há
continuidade de construção. (CARNIEL, 2019, p. 4)
Essa longa discussão e
efetivação de imposições de currículos nacionais, sempre são marcadas por
críticas, lacunas e omissões. O que caracteriza bem um currículo hierarquizado
e a serviço do poder.
Analisando a BNCC
especificamente no que concerne ao ensino de história no 6º ano do ensino
fundamental, que é o foco principal dessa pesquisa. Percebe-se que ela
contempla a necessidade de se trabalhar história utilizando-se de diversas
fontes, inclusive as fontes materiais. Conforme a BNCC, “[…] o objeto histórico
transforma-se em exercício, em laboratório da memória voltado para a produção
de um saber próprio da história” (BRASIL, 2017, p. 396). Esse estudo através de
objetos considerados históricos, estimulam e auxiliam o conhecimento histórico.
As
questões que o historiador pode fazer sobre um determinado documento, são
fundamentais para o processo de conhecimento, identificação e aprendizagem
histórica. Por exemplo, os vestígios cerâmicos disponíveis no Centro Mulheres
de Barro podem servir de “laboratório da memória”, como aponta a BNCC. E ainda,
colaboram com o conhecimento da história local, e conhecimento de conceitos
trabalhados em história como a questão de tempo, espaço e memória. Instigando
os estudantes a se perceberem como sujeitos históricos e conhecerem o mundo ao
seu redor.
A percepção da distância entre objeto e pensamento é
um passo necessário para a autonomia do sujeito, tomado como produtor de
diferentes linguagens. É ela que funda a relação do sujeito com a sociedade.
Nesse sentido, a História depende das linguagens com as quais os seres humanos
se comunicam, entram em conflito e negocia. (BRASIL, 2017, p. 401).
De modo geral, percebemos
que a BNCC tem alguns aspectos que são exaltáveis ao ensino de história e que
podem ser contemplados através da educação patrimonial, apesar desse termo não
constar explicitamente no documento. Mas, fica claro também as lacunas dessa
Base Curricular (talvez por falta de uma maior participação dos profissionais
da educação de modo geral), e a reprodução de uma história tradicional. “[...]
trata-se de um documento conversador, emitido por um governo conservador,
golpista, ditatorial” (SILVA, 2018, p. 1012).
Apesar das discordâncias e críticas a BNCC, podemos
perceber um forte entrelace entre a temática dessa pesquisa e a BNCC, na
primeira Unidade Temática de história proposta aos sextos anos do ensino
fundamental, “História: tempo, espaço e formas de registros”. Na habilidade
“[…] identificar a gênese da produção do saber histórico e analisar o
significado das fontes que originaram determinadas formas de registro em
sociedades e épocas distintas. ” (BNCC, 2017, p. 421).
Uma das formas de
registros a ser empenhado como objeto de conhecimento nesse contexto, pode ser
os vestígios arqueológicos de cerâmica trabalhados no Centro Mulheres de Barro.
Como forma de registro da história e da produção do conhecimento histórico e
como “laboratório da memória”. Como o próprio documento ressalta:
O exercício de
transformar um objeto em documento é prerrogativa do sujeito que o observa e o
interroga para desvendar a sociedade que o produziu. O documento, para o
historiador, é o campo da produção do conhecimento histórico; portanto, é esta
a atividade mais importante a ser desenvolvida com os alunos. Os documentos são
portadores de sentido, capazes de sugerir mediações entre o que é visível
(pedra, por exemplo) e o que é invisível (amuleto, por exemplo), permitindo ao
sujeito formular problemas e colocar em questão a sociedade que os produziu.
(BRASIL, 2017, p. 418)
Tendo em vista que os
currículos são imposições, em Parauapebas também existe essa relação de poder.
Porém é necessário lidar com essas orientações, e para isso, a educação através
do patrimônio local é uma possibilidade de auferirmos uma maior ação por parte
do professor. O próprio Centro Mulheres de Barro é uma questão de rupturas.
Essas imposições nos
remetem ao pensamento que correlaciona o currículo a questões de poder. A
partir do momento em que alguém ou um grupo seleciona o que deve e o que não
deve ser ensinado e consequentemente aprendido, o que é considerado relevante
ou não, e o que deve ser lembrado e/ou esquecido, fica clara a imposição do poder.
Como afirma Tomaz Tadeu da Silva:
Da perspectiva pós-estruturalista, podemos dizer que o
currículo é também uma questão de poder e que as teorias do currículo, na
medida em que buscam dizer o que o currículo deve ser, não podem deixar de
estar envolvidas em questões de poder. Selecionar é uma operação de poder.
Privilegiar um tipo de conhecimento é uma operação de poder. Destacar, entre as
múltiplas possibilidades, uma identidade ou subjetividade como sendo a ideal é
uma operação de poder. (SILVA, 2010, p. 16)
A imposição curricular é
fato em nosso país e claro, nas nossas escolas também. Inúmeros interesses,
principalmente políticos, infelizmente, se refletem nos conteúdos e até na
forma de como devem ser trabalhados em sala de aula[3].
O currículo está organizado,
hierarquicamente, em uma grade curricular que valoriza algumas disciplinas em
detrimento de outras, como se um determinado conhecimento, fosse mais
importante do que outro. No caso do 6º ano do ensino fundamental, por exemplo,
os estudantes têm apenas duas aulas de história por semana, em contrapartida,
seis aulas de matemática e seis de língua portuguesa. Na escola Carlos
Henrique, foco dessa pesquisa, essas duas aulas de história se resumem,
dependendo do horário, em 80 minutos semanais. Com desconto para o tempo de
entrada dos estudantes e controle da frequência.
“Se a ideologia cedesse
lugar ao verdadeiro conhecimento, o currículo e a sociedade seriam finalmente
emancipados e libertados” (SILVA, 2010, p. 149). Acreditamos que, apesar de
todas as imposições, os docentes ainda podem e devem conseguir driblar alguns
discursos alienantes, deixando-os menos eficazes e mais questionáveis. De tal
modo, a proposta de trabalho aqui apresentada propõe o caminho do ensino de
história, nessa perspectiva, para os alunos do sexto ano da Escola Carlos
Henrique, através da interação com o Centro Mulheres de Barro e seu trabalho
com o patrimônio histórico de Parauapebas como possibilidade de superação das
restrições curriculares.
1.3- E uma escola é forjada a E.M.E.F.
Carlos Henrique
A
Escola Carlos Henrique além de ser o foco dessa pesquisa é também a escola que
leciono desde 2008. E é dessa experiência pedagógica que surgiu a inquietação
por perceber as dificuldades dos estudantes dos sextos anos no ensino de
história. Para se compreender melhor esse universo escolar específico, esse
subcapítulo pretende fazer uma breve apresentação da E.M.E.F. Carlos Henrique.
Uma das fontes de
pesquisa importante para se conhecer uma escola é o seu PPP (Projeto Político
Pedagógico). “O PPP é entendido como a própria organização do trabalho
pedagógico da escola como um todo. [...] é construído e vivenciado em todos os
momentos, por todos os envolvidos com o processo educativo da escola” (VEIGA,
1995, p. 1). Portanto, não deve ser um documento sólido e burocrático, e sim,
um instrumento flexível de reflexão e discussão permanente dos problemas que
surgem na escola. O projeto político pedagógico reproduz a identidade da
escola, sua estrutura, seu histórico e seu perfil.
A última versão do PPP da
Escola Municipal de Ensino Fundamental Carlos Henrique (ver imagem I), foi
atualizada em 2018, essa é a triste realidade de muitos PPP que em grande
parcela, encontram-se desatualizados. Conforme esse documento, a escola conta
com 40 docentes. Sendo que desse total, 13 se revezam entres as turmas de 6º
ano. A escola fica na Rua Lauro Corona (várias ruas desse bairro possuem nomes
de artistas), no bairro Da Paz. Possui prédio próprio (algumas escolas do
município funcionam em prédios locados pela prefeitura) e uma área construída
de 1.183 m². É considerada uma escola de grande porte, por ter mais de mil
estudantes, que se dividem em 12 salas de aula, em três turnos, manhã,
intermediário e tarde. À noite, são emprestadas 6 salas ao estado, para
funcionamento do ensino médio. As turmas de 6º ano, incluindo a selecionada
nessa pesquisa, que é o 6° ano, turma A, funcionam no turno intermediário, de
11 horas até 14:45. Chamado por alguns alunos de “turno da fome”, apesar da
disponibilidade da merenda escolar, todos têm apenas 15 minutos para almoçar.
Horário considerado por muitos educadores, discentes e pais, como impróprio
para crianças.
Principalmente
pelos constantes problemas com o calor, causados pela instabilidade da energia
ou falta de manutenção dos equipamentos de ar condicionado. Situações que
muitas vezes atrapalham as aulas e consequentemente o aprendizado.
Imagem 1 - Fachada da E.M.E.F. Carlos
Henrique
Fonte:
Acervo particular do autor, 2020.
Essa
estrutura física da escola (ver imagem 2), conta ainda com diversos espaços
pedagógicos, como: sala de leitura, quadra de esportes, laboratório de
informática, sala de recursos, de vídeo, de reforço e biblioteca. Que
infelizmente, é mais utilizada como depósito de livros didáticos.
Imagem 2 - Pátio interno da EMEF Carlos
Henrique
Fonte:
PPP da escola, 2018.
Conforme o PPP, a escola
foi criada devido à necessidade de atender aos alunos da Escola Municipal
Plácido de Castro, que estava superlotada. Seu nome, Carlos Henrique, é uma
homenagem ao jovem migrante Carlos Henrique Costa Gonçalves. Nascido no
Maranhão, chegou em Parauapebas em 1987, aos 12 anos de idade. Aos 17 já era
coordenador de um grupo de jovens católicos. Sua filosofia era baseada na obra
do seu ídolo Raul Seixas, “O meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu
egoísmo é querer ajudar”. O jovem
Carlos Henrique faleceu em 1993 vítima de um acidente automobilístico na saída
da escola.
Nos
últimos anos, a escola passou por sucessivas trocas de gestores. Provavelmente
por conta de mudanças administrativas e políticas no município, principalmente
na secretaria de educação. Já que o cargo de Diretor Escolar no município é
preenchido por indicação. Porém, o PPP indica que:
A equipe de gestão direciona o seu trabalho através de
desenvolvimento de projetos de aprendizagem, focados principalmente para a
leitura, elaborados em parceria com a equipe docente, que envolvem a comunidade
escolar e local, em busca de fortalecer a relação entre ambos, objetivando
desta forma estreitar a ponte educacional que existe no âmbito de aprendizagem
familiar e educacional do discente. (PPP-EMEF CARLOS HENRIQUE, 2018, p. 19)
De fato, é perceptível na
escola os projetos constantes de leitura vindo de profissionais destacados para isso, como também de envolvimento de toda a
escola e até da comunidade. Assim como, é muito comum haver mães, lideranças,
voluntários (as) e outros membros da comunidade, inseridos nas reuniões
administrativas/pedagógicas e de forma geral, no espaço escolar. Essas
participações são muito importantes para o sucesso escolar dos estudantes,
podem representar o futuro de uma sociedade melhor em vários aspectos, como
sonhava o jovem Carlos Henrique.
Essa esperança de um
futuro melhor, é uma das grandes preocupações da escola. Já que, além da
localização periférica da cidade e todos os problemas socioeconômicos advindos
dessa realidade. A escola ainda é ladeada de antigos prostíbulos da antiga Rua
do Meio, bocas de fumo e constantes assaltos, até mesmo dentro da escola. O que
acarreta problemas como: discriminação social, violência escolar, bullying,
drogas, sexualidade na adolescência, entre outros. Para amenizar, ou tentar
eliminar esses problemas, trabalhamos com vários projetos interdisciplinares,
ações e palestras educativas, conta agora também, com o apoio da Guarda
Municipal e sua ronda escolar, equipe do posto de saúde do bairro e rádio
comunitária.
Todos esses aspectos
mencionados, nos direcionam a reflexão das dificuldades de aprendizagens
apresentadas pelos alunos de forma geral. E especificamente dos discentes do 6º
ano que são foco dessa pesquisa. As ações pedagógicas projetadas pela gestão e
toda a equipe escolar, nos mostram resultados positivos de interação e
participação. E esse envolvimento é fundamental para o desenvolvimento de
aprendizagens.
Além
da percepção sobre a cidade, o bairro e a escola, precisamos focar no nosso
público-alvo, os estudantes. Para isso, continuamos a dialogar com o PPP, que
mostra, por exemplo, que 41% dos estudantes da referida escola moram com os
pais, 10% só com o pai e 29% só com a mãe, o restante, dividem moradia com
avós, tios e outras pessoas respectivamente (ver Gráfico 1). E que a grande
maioria das suas residências, tem uma média de 6 pessoas morando. Esses dados
nos fazem refletir além da questão socioeconômica e cultural, a questão
estruturar familiar. Que são fatores que podem influenciar no processo de
ensino e aprendizagem.
Gráfico 1 - Com quem
moram os estudantes da Escola Carlos Henrique
Fonte:
PPP da escola, 2018.
Considerando
que dessas famílias, 37% dependem de auxílio do governo, como o benefício do
bolsa família, por exemplo, para poderem garantir os bens necessários para a
sobrevivência (ver Gráfico 2). E que, infelizmente, em conversas com alunos,
apontam que para muitos estudantes a merenda escolar é a única alimentação do
dia.
Gráfico 2 - Famílias de
estudantes da Escola Carlos Henrique que recebem Bolsa Família
Fonte:
PPP da escola, 2018.
Podemos pensar no quanto
é complicado esperar uma dedicação e atenção maior dos discentes em uma aula de
história, por exemplo. Por isso, a pesquisa busca disponibilizar uma maior
atenção aos alunos e alunas através da educação patrimonial, como instrumento
facilitador de aprendizagens, na busca por aulas mais atraentes, que possam
despertar o cognitivo através do interesse pelo conteúdo de uma história local.
Apesar da escola pública,
hoje em dia, estar mais disponível às populações carentes, comparando com um
passado distante, em que, a educação escolar era um privilégio de poucos.
Ainda o PPP da escola
informa que dos pais de alunos da Escola Carlos Henrique, 19% completaram o
ensino fundamental e apenas 29% completaram o ensino médio.
Quanto ao período
pandêmico que estamos vivendo atualmente, nos leva a refletir sobre a forma remota
de aulas, em que se espera uma contribuição maior da família, já que, os alunos
estão estudando em casa.
Será que realmente
pode-se contar com a contribuição desses pais no processo de aprendizagem
específico disciplinar? Érika Dias e Fátima Pinto apontam que,
No
momento atual, muitas escolas, públicas e privadas, estão exagerando nas
expectativas do que professores e familiares conseguem fazer. Há diferenças
substanciais entre as famílias, atualmente, em confinamento. Algumas podem
ajudar seus filhos a aprender mais do que outras. Fatores como a quantidade de
tempo disponível para se dedicar aos estudos dos filhos, auxiliando-os com as
aulas online – muitos pais estão em home
office cumprindo horário laboral integral e outros tantos precisam
trabalhar externamente para garantir a renda mensal –; as habilidades não
cognitivas dos genitores; a possibilidade de acessar o material online; a
quantidade de conhecimento inato dos pais – afinal, é difícil ajudar o filho se
tiver de aprender algo estranho ao que se conheceu e aprendeu – são questões a
serem levados em conta quanto ao papel dos pais na Educação dos filhos em
tempos de pandemia. (DIAS; PINTO, 2020)
Não há um parâmetro de
expectativas de aprendizagens nesse período pandêmico. Infelizmente as perspectivas
são bastante singulares em cada lar. Na turma do 6° ‘A’ da escola pesquisada, a
maioria dos estudantes não tem sequer um celular. Geralmente revezam o aparelho
entre toda a família. Assim como, a maioria também não tem sinal de internet
suficiente para acompanhar todas as aulas, geralmente usam dados móveis e
limitados. Além da pouca contribuição na aprendizagem dos conteúdos que os
responsáveis podem dar. O que se torna um fator agravante para o avanço do
próprio discente, que muitas vezes não pode contar com auxílio em casa nas
atividades escolares diárias.
Tal quadro pandêmico nos
levou a uma mudança na proposta de material didático a ser desenvolvido nessa
pesquisa, inicialmente pensamos em um aplicativo para celulares que poderia ser
utilizado nas aulas de história e que abordaria o Centro Mulheres de Barro, com
a nova realidade fomos levados a ver que esse material não responderia a
situação de carência dos discentes. Assim partimos para a ideia que surgiu na
banca de qualificação de fazermos um Manual de Visitação para o Centro que
poderia tanto ser utilizado em nossas aulas de história para o 6 ano A, quanto
em outras aulas ministradas por outros professores, de tal modo ampliamos o
escopo de abrangência do material didático em uma fina conexão com o PPP da
escola e com a diretrizes curriculares.
Ainda lembramos que o
Projeto Político Pedagógico da escola ressalta que um dos objetivos desse
espaço do saber é auxiliar no crescimento intelectual, moral, cultural e na
formação do caráter como também, um elo de forte persuasão nas opiniões sobre o
mundo. Essas intenções da escola competem, segundo o próprio documento
analisado, com um grande instrumento de manipulação, que é a televisão.
Considerada pela maioria dos estudantes como o principal lazer e diversão
deles. A Escola Carlos Henrique compromete-se ainda, em:
[...]
ajudar na formação de uma sociedade mais digna, justa e fraterna, que atenda
aos anseios de toda comunidade escolar, com o compromisso de que cada
profissional execute sua tarefa de educar com dedicação, reencantando e contribuindo para a formação do cidadão íntegro,
conscientes, justos e atuantes que produza novos ideais e exerça influencia
transformadora na sociedade, formada por cidadãos conscientes, justos e
atuantes. (PPP. EMEF CARLOS HENRIQUE, 2018, p. 31)
A escola ressalta a sua
função social de construção da cidadania e “[...] o compromisso da valorização
da cultura, da igualdade, ética e solidariedade, oferecendo aos alunos o saber
social relevante no âmbito regional e nacional, como também do patrimônio
universal da humanidade [...]” (E.M.E.F. CARLOS HENRIQUE-PPP, 2018, p. 33).
Excetuando as outras
vezes em que a palavra “patrimônio” aparece no texto do PPP, sempre com o
significado de bens materiais públicos da escola, conservação e manutenção
desse patrimônio. Somente na página 33 a palavra patrimônio adquiri um sentido
mais amplo. Uma relação com cultura e saber social no âmbito regional. Sentidos
mais pautados na pesquisa em curso. Que objetiva refletir e ensinar sobre
memória e a história local do município de Parauapebas, por meio do estudo do
patrimônio histórico trabalhado no Centro Mulheres de Barro, com o intuito de
gerar conhecimento sobre história, fontes, tempo/espaço e patrimônio para
alunos de 6° ano da escola E.M.E.F. Carlos Henrique.
A escola Carlos Henrique,
tem como missão “Assegurar um ensino de qualidade, garantindo o acesso e a
permanência do aluno na escola, formando cidadãos críticos e capazes de
transformar a realidade” (PPP, 2018, p. 34). Essa perspectiva fortalece o
intuito dessa pesquisa, de proporcionar através da educação patrimonial uma
aprendizagem histórica significativa. Já que, a escola também visa transformar
os alunos em agentes de sua própria história, protagonistas conscientes da
importância de toda a história ao seu redor e participativos dessa comunidade,
exercendo a tão almejada cidadania.
Dentro dessa perspectiva
de aprendizagens almejada, o trabalho culminará com a proposição e criação de
um manual de apoio a visitação ao Centro Mulheres de Barro. Material destinado
ao uso dos docentes que buscará facilitar e conduzir o acesso ao centro, de
forma que as visitações dos seus alunos e alunas sejam mais proveitosas no
aspecto das aprendizagens pretendidas e do despertar à história de uma forma
mais abrangente e atraente. Tendo em vista, que o centro ainda não possui um
material assemelhado a esse proposto nessa pesquisa. A visitação para
estudantes ao centro funciona da seguinte forma: a escola primeiramente agenda
a visita, que pode ser até para a turma inteira com duração de 1 a 2 horas, com
formato e tempo definidos dependendo do perfil da turma.
Uma vez lá, tem vez a
apresentação do centro, com um tour e em seguida no andar superior uma
apresentação de slides. Depois, um momento de interação e contato com materiais
de argila e posteriormente se faz uma prática com argila. Todas as cooperadas
do centro receberam treinamentos internos e estão aptas para esse acolhimento.
Contudo, o proposto manual que será a nossa proposição, pretende fomentar as
possibilidades de compreensão, ensino e aprendizagem da temática do patrimônio
histórico em Parauapebas. Essa ação estará relacionada com os conteúdos básicos
de história referentes ao 6° ano. Como uma forma de aula atrativa, envolvente e
que desperte o cognitivo para a disciplina de história.
Apesar de estamos
desenvolvendo o material como resultante do laboratório com a turma do 6 ano A,
pretendemos que esse material sirva para o ensino de história com os vários
sextos anos do colégio, assim como outras turmas que os professores acharem
pertinentes o uso desse material.
Dessa forma, a pesquisa
dialoga com o PPP da escola. Que legitima e apoia ações favoráveis ao
aprendizado inovador, participativo e integrado. “[...] a Escola Municipal de
Ensino Fundamental Carlos Henrique assume o compromisso de fazer parte da
transformação do ser humano do século XXI, numa amplitude única e incomparável
[...]” (PPP, 2021, p. 37). Porém, apesar de tudo que foi analisado e discutido
sobre o PPP da Escola Carlos Henrique, quando passamos a analisar o documento
que norteia as atividades da escola, denominado de “Plano de Ação – Ano Base,
2018”, a realidade é excludente. Quanto aos encaminhamentos relacionados à
disciplina de história, a única ação que percebemos é direcionada em “promover
o desenvolvimento cultural na comunidade escolar”. Da seguinte forma:
“Trabalhar todas as datas comemorativas do calendário escolar. Montar
cronograma das datas comemorativas do ano escolar”. Ou seja, na hora do ensino
de história, lança mão de uma ultrapassada pedagogia utilizada nos anos
iniciais do ensino fundamental e que é muito criticada pelos pesquisadores do
ensino de história.
Para se conhecer um pouco
mais sobre a Escola Carlos Henrique, precisa-se também analisar e avaliar seus
resultados. Pensando sempre neles como resposta do processo de ensino e
aprendizagem na escola, mas sem deixar de considerar as variáveis do processo.
1.4-
Os índices avaliativos como reflexo das aprendizagens
Existem diversas maneiras
para se compreender o processo de ensino e aprendizagem em uma escola. Uma
delas é através da análise dos seus resultados avaliativos. Infelizmente, ainda
vivemos em um sistema educacional avaliado por padrões quantitativos. Em que se
mede os resultados obtidos buscando uma visão qualitativa. O que nem sempre
reflete os verdadeiros e mais importantes resultados, que são os resultados das
aprendizagens, que podem ser obtidos através da observação do desenvolvimento cognitivo
dos discentes.
Mas, como oficialmente
esses dados são usados como parâmetros, devemos analisá-los como uma das formas
de se perceber os níveis de aprendizagens e qualidade de ensino da Escola
Municipal de Ensino Fundamental Carlos Henrique.
Primeiramente
devemos esclarecer como funcionam alguns desses “equipamentos” governamentais
de avaliação externa. Como por exemplo o IDEB (Índice de Desenvolvimento da
Educação Básica). Segundo informa o INEP (Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira),
O Índice de Desenvolvimento da
Educação Básica (Ideb) foi criado em 2007 e reúne, em um só indicador, os
resultados de dois conceitos igualmente importantes para a qualidade da
educação: o fluxo escolar e as médias de desempenho nas avaliações. O Ideb é
calculado a partir dos dados sobre aprovação escolar, obtidos no Censo Escolar, e das médias de desempenho no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). (INEP, 2019).
Como fica claro, o IDEB
avalia dois itens importantes, o fluxo escolar, tentando perceber
principalmente as taxas de evasão escolar (sabemos que no Brasil, infelizmente,
a quantidade de alunos diminui a cada nível maior de escolaridade), e a média
de aprovação escolar. O que, no caso do município de Parauapebas e outros
também, causa uma certa discordância de dados. Já que o município trabalha o
ensino fundamental através do sistema de ciclos. No caso do 6º ao 9º ano por
exemplo, são equivalentes ao 3° ciclo (6º e 7º anos) e 4º ciclo (8º e 9º anos).
Sendo que no sistema de ciclos, os alunos têm o ciclo inteiro, ou seja, dois
anos para alcançar as habilidades e competências referentes ao determinado
ciclo. De tal modo, no 6º e 8° anos não há reprovação (a não ser no caso de
extrapolação da quantidade de faltas). Portanto, as aprovações são automáticas.
O que então, já garante perante ao IDEB, que mede a quantidade de aprovações
como parâmetro de qualidade de educação, uma aprovação automática de 50% dos
alunos do ensino fundamental. Já que o fundamental “menor” também funciona no
sistema de ciclos.
O INEP (Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), através de nota
técnica preconiza que:
Um sistema
educacional que reprova sistematicamente seus estudantes, fazendo com que
grande parte deles abandone a escola antes de completar a educação básica, não
é desejável, mesmo que aqueles que concluem essa etapa de ensino atinjam
elevadas pontuações nos exames padronizados. Por outro lado, um sistema em que
todos os alunos concluem o ensino médio no período correto não é de interesse
caso os alunos aprendam muito pouco na escola. Em suma, um sistema de ensino
ideal seria aquele em que todas as crianças e adolescentes tivessem acesso à
escola, não desperdiçassem tempo com repetências, não abandonassem a escola
precocemente e, ao final de tudo, aprendessem. (INEP, 2019).
Precede-se,
através dessa nota, que o IDEB tenta sintetizar as informações de desempenho
dos exames com as do rendimento escolar. Em nota informativa referente ao IDEB
2019, o último até então realizado, o Ministério da Educação através do INEP,
ressalta que:
Os resultados
do Ideb 2019 para escola, município, unidade da federação, região e Brasil são
calculados a partir do desempenho obtido pelos alunos que participaram do SAEB
2019 e das taxas de aprovação, calculadas com base nas informações prestadas ao
Censo Escolar 2019. Dessa forma, cada uma dessas unidades de agregação tem seu
próprio Ideb e metas estabelecidas ao longo do horizonte do PDE, ou seja, até
2021. (INEP, 2019)
Essa mesma nota,
mostra também, como são realizados os cálculos para os resultados gerais.
Resultados esses, obtidos ao final do ensino fundamental menor, 5º ano, e final
do ensino fundamental maior, 9º ano. Como essa pesquisa analisa as dificuldades
de aprendizagens dos alunos de uma turma do 6º ano, vamos analisar os
resultados do 5º ano (ver gráfico 3), final do ensino fundamental menor. Com o
intuito de compreender o nível de dificuldades que esses alunos chegam no
ensino fundamental maior, 6º ano.
Gráfico 3 - Índices de
proficiência por estudantes do 5° ano na Escola Carlos Henrique
Fonte:
Boletim da Escola | Saeb 2019.
O IDEB 2019, avaliou na Escola Carlos Henrique, as
habilidades adquiridas em Língua Portuguesa e Matemática. Vamos analisar aqui
os índices gerais e focalizar nos resultados referentes a disciplina língua
portuguesa. Devido a leitura e compreensão serem bases para o conhecimento na
disciplina de História. Esses resultados de desempenho são expressos em escalas
de proficiência, pressupondo o alcance e desenvolvimento das habilidades em
cada nível e nos seus precedentes.
Segue abaixo as informações dos níveis de proficiência
3 e 4, para norteamento dos níveis da escola analisada:
Nível 3 Desempenho
maior ou igual a 175 e menor que 200. Além das
habilidades anteriormente citadas, os estudantes provavelmente são capazes de:
Localizar informação explícita em contos e reportagens. Localizar informação
explícita em propagandas com ou sem apoio de recursos gráficos. Reconhecer
relação de causa e consequência em poemas, contos e tirinhas. Inferir o sentido
de palavra, o sentido de expressão ou o assunto em cartas, contos, tirinhas e
histórias em quadrinhos com o apoio de linguagem verbal e não verbal.
Nível 4 Desempenho
maior ou igual a 200 e menor que 225. Além das
habilidades anteriormente citadas, os estudantes provavelmente são capazes de:
Identificar informação explícita em sinopses e receitas culinárias. Identificar
assunto principal e personagem em contos e letras de música. Identificar formas
de representação de medida de tempo em reportagens. Identificar assuntos comuns
a duas reportagens. Identificar o efeito de humor em piadas. Reconhecer sentido
de expressão, elementos da narrativa e opinião em reportagens, contos e poemas.
Reconhecer relação de causa e consequência e relação entre pronomes e seus
referentes em fábulas, poemas, contos e tirinhas. Inferir sentido decorrente da
utilização de sinais de pontuação e sentido de expressões em poemas, fábulas e
contos. Inferir efeito de humor em tirinhas e histórias em quadrinhos. (INEP,
2019)
Baseado nessas
informações e respectivamente nos níveis de proficiência alcançados nas últimas
avaliações no 5° ano da Escola Carlos Henrique, apresentados no gráfico I. E
com a participação de 113 dos 123 discentes matriculados, podemos perceber que
em todas essas avaliações as turmas de 5º ano da referida escola, sempre
estiveram entre os níveis de proficiência 3 e 4. Demonstrando uma média de
aprendizagens longe do ideal, porém, próximo ao nível da escala de proficiência
das escolas consideradas similares. Tais escolas, são equiparadas através dos
seguintes indicadores contextuais:
O Indicador de
Nível Socioeconômico possibilita, de modo geral, situar o público atendido pela
escola em um estrato ou nível social, apontando o padrão de vida referente a
cada um de seus níveis. Esse indicador é calculado a partir da escolaridade dos
pais e da posse de bens e contratação de serviços pela família dos alunos. Para
melhor caracterizar as escolas foram criados seis grupos, de modo que, no Grupo
1, estão as escolas com nível socioeconômico mais alto O Indicador de Adequação
da Formação Docente analisa a formação dos docentes que lecionam nos anos
iniciais e finais do ensino fundamental bem como no ensino médio, na escola.
Apresenta o percentual de disciplinas, em cada etapa, que são ministradas por
professores com formação superior de Licenciatura (ou Bacharelado com
complementação pedagógica) na mesma disciplina que leciona. No caso dos anos
iniciais, considera-se adicionalmente a formação em Licenciatura em Pedagogia
(ou Bacharelado com complementação pedagógica). (INEP, 2019)
A Escola Carlos Henrique está enquadrada no Nível
Socioeconômico IV. O que demonstra uma carência econômica muito grande dos seus
alunos e uma baixa escolaridade dos seus pais. Assim como, o boletim da
escola/Saeb 2019 também mostra que nos anos iniciais do ensino fundamental em
2019 havia uma carência de professores com formação em nível superior de quase
15% do corpo docente da escola. O que pode representar um agravante nos
resultados da escola.
Quanto ao nível de proficiência dos quintos anos da
escola terem chegado ao nível 4 (214,75), devemos saber que do total de alunos
que participaram da avaliação, de fato, apenas 21,86% dos alunos obtiveram
classificação de nível 4. Os demais obtiveram resultados entre o nível 0 (1,73%
apenas) e o nível 8 (2,66% apenas). Porém, esses resultados apesar de não serem
satisfatórios do ponto de vista de uma aprendizagem qualitativa, ainda se
sobrepuseram aos resultados gerais do município de Parauapebas, que foi de
205,21 e do estado do Pará, 189,36. E ainda demonstram uma total dessemelhança
entre as turmas e consequentemente entre os discentes. Já que houve uma grande
variação dos resultados dos estudantes entre os níveis de proficiência.
Entre as habilidades provavelmente alcançadas, algumas
chamam atenção para essa pesquisa e o que os resultados dos 5° anos, de uma
forma geral, podem representar consequentemente nos estudos da disciplina de
História nos 6º anos do ensino fundamental. Primeiramente, no nível 1, o aluno
(a) provavelmente já é capaz de localizar informações explícitas no texto e de
estabelecer relação entre partes do texto, como ação e tempo. Ou seja, fica
subtendido que essas habilidades ajudam na compreensão dos textos históricos a
serem trabalhados no 6° ano, assim como, uma noção de temporalidade. No nível
2, os estudantes provavelmente são capazes de identificar o assunto principal e
personagem principal em determinados textos. O que, de certa forma, ajuda a
identificar personalidades e os temas em algumas historiografias. Já no nível
3, pressupõe-se que podem reconhecer relação de causa e consequência em
determinados textos. E no 4, além de tudo isso, provavelmente identificam
formas de representação de medida de tempo e identificam também, assuntos
comuns em documentos diferentes. Supostamente, os estudantes que realmente
conseguem adquirir essas habilidades, terão melhores aprendizagens na
disciplina de História. Já que são habilidades mínimas para o desenvolvimento
do aprendizado de análises de fontes escritas, que geralmente, ainda são as
mais utilizadas nas salas de aulas do ensino fundamental.
A escola Carlos Henrique, assim como, a maioria das
escolas públicas, enfrenta diariamente vários problemas. Porém, a escola tem um
diferencial que é a sua equipe. A maioria dos servidores já trabalham há anos
nessa mesma escola, facilitando um entrosamento que se reflete nas ações
executadas no decorrer do ano letivo. Os projetos didáticos interdisciplinares
costumam ser integradores, tanto do corpo docente, quanto entre os discentes, e
até entre toda a comunidade escolar. A dedicação dos estudantes em aulas
diversificadas e além da rotina da sala de aula é bastante perceptível e
impulsiona essa pesquisa a lograr êxito em sua proposição.
A escolha da turma
para essa pesquisa não foi aleatória. Percebe-se claramente nas turmas de 6º
ano o nível de dificuldade da compreensão histórica e também, o impacto inicial
com a disciplina específica. Lembrando que apesar do conhecimento prévio que os
estudantes já trazem, tanto da vida como das experiências escolares no ensino
fundamental menor, as complexidades de entendimento são constantes para as
crianças de 6° ano. Principalmente, para as questões de temporalidade e
espacialidade. Ainda, é nesse nível de ensino que se pretende com que esses
discentes aprendam elementos básicos que são fundamentais para a disciplina de
história. Portanto, há a necessidade de um professor específico para a
disciplina, como ressalta Flávia Eloisa Caimi:
O
primeiro pressuposto para ensinar História é dominar os saberes a ensinar, pois
não se ensina aquilo que não se tem. [...] O conhecimento histórico é o insumo
que possibilita ao professor selecionar conceitos e informação histórica com
critérios cientificamente fundamentados. Um sólido conhecimento da matéria a
ser ensinada, acreditamos, implica conhecer a natureza e a estrutura do
conhecimento, sua matriz disciplinar e métodos de investigação. (CAIMI, 2015,
p. 112-113)
Esse domínio dos saberes a ensinar que o professor
deve possuir, somado com o envolvimento característico das crianças do 6º ano
quando se trata de uma aula diferente da rotina, são fatores preponderantes
para uma aprendizagem significativa. Assim como, conhecer a turma também é
fundamental. Todos esses fatores juntos, certamente contribuem para um
despertar da consciência desses estudantes como sujeitos históricos de
Parauapebas.
Dessa forma, todo esse histórico de Parauapebas pode
colaborar para uma aprendizagem significativa de história. Vindo desde a
questão da valorização das especificidades locais, versus a algumas imposições
de uma identidade cultural e social nacionalista. Podemos trabalhar nas salas
de aula dos 6º anos os conteúdos básicos de arqueologia, usando como exemplo a
arqueologia local de Carajás e seus diversos sítios arqueológicos. Ministrar
aulas sobre a história do município de Parauapebas, que está completando 34
anos de emancipação, mas que se formou através de um processo mais longo e
detalhado. Assim como, outros processos de ocupação da Amazônia incentivados
pelo governo, que geraram várias ondas migratórias e muitas desigualdades.
É sempre importante lembrar do contexto econômico do
município onde a escola em questão está inserida e da atual potência econômica
da cidade, que infelizmente não se reflete nos resultados educacionais de
aprendizagens desejados. A história de Parauapebas é marcada por um imenso
contraste social, consequência da exploração da imensa quantidade de minérios
que se encontram no município e região. E da empresa responsável por essa discrepância.
Desde a formação do núcleo residencial para os seus funcionários “superiores”
até a segregação com a vila e os primeiros bairros da cidade. Incluindo o
bairro da Paz, onde se encontra a Escola Carlos Henrique, foco dessa pesquisa,
e que apesar de toda a problemática que está inserida (localização, econômica,
social, etc.), acreditamos que através da educação patrimonial podemos usar
todo esse cenário para contribuir com o ensino de história dentro das
perspectivas de transformação no sentido histórico, crítico e cidadão dos
estudantes.
Essa breve análise de parte dos resultados da Escola
Carlos Henrique, nos permite observar que apesar do muito que ainda se precisa
avançar, em termos de aprendizagens, e de todos os obstáculos a serem
superados, essa pesquisa pode e deve contribuir com um melhor conhecimento
histórico dos estudantes. Não só pelas pesquisas, análises e reflexões feitas
ao longo desse trabalho, mas também pela proposição final que será apresentada
com o intuito de colaborar com o processo de ensino e aprendizagem de história.
No entanto, essa pesquisa
pretende ir além das reflexões teóricas sobre o ensino de história. Pretende-se
propor encaminhamentos a esse ensino através da educação patrimonial, do uso de
fontes e de aulas sobre a história local de Parauapebas que proporcionem aos
alunos sentirem-se sujeitos históricos conscientes de sua realidade.
Demonstrando que vivemos em um espaço de práticas culturais distintas e muito
mais antigas do que acreditamos, essas podem ser trabalhadas como instrumento
de pertencimento a algo muito maior do que uma simples análise do lugar pode
indicar, nossas raízes amazônicas são muito mais fortes e profundas do que nos
ensinam, essa é a reflexão que pretendemos levar aos alunos da Escola Carlos Henrique
por meio de um material didático que visa completar a formação destes discentes
para além das dificuldades apontadas pelos indicadores avaliativos.
O
patrimônio cultural no ensino de História
2.1 – Patrimônio cultural como fonte para o
ensino de história.
O
propósito dessa pesquisa é o uso do patrimônio como ferramenta para ensinar
história no ensino fundamental. Muitas vezes, até pela própria dinâmica
tradicional das aulas, que não favorecem um despertar cognitivo pela área e um sentimento
de pertencimento a história local. Por conseguinte, esse trabalho busca uma
sensibilização e incentivo para essa prática. Uma reflexão
teórico-metodológica, que possa refletir em um produto que favoreça situações
de ensino e aprendizagem nas aulas de História em Parauapebas. Mas, para que
cheguemos nessa dimensão propositiva da dissertação, precisamos fazer uma
análise sobre o conceito de patrimônio dentro do ensino de história.
Para
o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o conceito de
patrimônio segue os preceitos da Constituição Federal de 1988 em seu artigo
216: “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e
imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à
identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade
brasileira [...]” (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988, ART. 216). Ampliando dessa
forma, o que estabelecia o Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, que
considerava apenas os bens móveis e imóveis. Ou seja, bens materiais. E ainda,
a constituição altera a nominação “Patrimônio Histórico e Artístico”,
fundamentada no antigo decreto, para “Patrimônio Cultural Brasileiro” e é esse
conceito que é utilizado nessa pesquisa. Portanto,
Nessa redefinição promovida pela
Constituição, estão as formas de expressão; os modos de criar, fazer e viver;
as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos,
documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;
os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico,
arqueológico, paleontológico, ecológico e científico”. (PORTAL DO IPHAN, 2021)
É
necessário salientar que o IPHAN, apesar de responder pela preservação do
Patrimônio Cultural Brasileiro, é uma autarquia federal vinculada ao Ministério
da Cultura e ao governo federal. O que pode representar, por vezes, interesses
exclusivos do poder. Portanto, deve-se tomar os devidos cuidados com possíveis
nuances nas análises dos seus materiais. Não os desconsiderando como
referências de instrumentos de acesso ao conhecimento e a gestão do patrimônio.
Nesse
trabalho vamos nos concentrar no patrimônio material e sua preservação e
valorização como instrumento educacional. Mas não podemos deixar de refletir
sobre as políticas que cercam todo o processo de preservação patrimonial. Como
diz Maria Cecília Londres Fonseca:
Entretanto,
é forçoso reconhecer que essa imagem, construída pela política de patrimônio
conduzida pelo Estado por mais de sessenta anos, está longe de refletir a
diversidade, assim como as tensões e os conflitos que caracterizam a produção
cultural no Brasil, sobretudo a atual, mas também a do passado. (FONSECA, 2009,
p. 56).
Muitos
avanços ocorreram desde o início das discussões sobre conceito do que é
patrimônio e da sua preservação. Mas os debates ainda são constantes, afinal,
como afirma Kassia de Luna: “[...] só se preserva aquilo que se julga, como os
bens que refletem a identidade e memória de uma nação” (LUNA, 2020, p. 37). É
justamente essa ideia sobre patrimônio que pretendemos compartilhar com os
nossos discentes. Um patrimônio material disponível ao acesso, que reflete não
uma história de uma nação, mas de uma região com significativo potencial
econômico e arqueológico que contribui imensamente para a história da nossa
nação. Parauapebas tem um potencial arqueológico com grandes possibilidades de
aproximar os estudantes do conhecimento histórico, das suas próprias histórias
e as possibilidades de múltiplas narrativas. Mostrar que a história não está
presente somente nos livros didáticos, distante, e sim, está presente no seu
cotidiano, como em todos os lugares, assim como todos estamos inseridos e
fazemos parte do conhecimento histórico. A exemplo disso, temos para a região,
estudos que indicam a presença do chamado “homem das cavernas” há 9.000 anos
A.P. (Antes do Presente) (MAGALHÃES, 2002, p. 11).
As
primeiras ideias de preservação surgiram na Europa no século XVIII, mas no
Brasil só começaram as discussões com o movimento modernista. As ideias de
conservação, de modo geral, estavam atreladas as grandes expressões da história
nacional. A proteção desses bens se manteve apesar da criação do SPHAN (Serviço
Histórico e Artístico Nacional), que tinha em seus quadros uma quantidade
significativa de arquitetos, no atual IPHAN. Mas, a participação da sociedade
nos processos, ampliou o conceito de patrimônio e passou a comtemplar culturas
de diferentes classes. O que, segundo Nestor Garcia Canclini, não garante uma
igualdade no tratamento de patrimônios.
O
patrimônio deveria expressar a solidariedade que une uma comunidade, ou seja,
expressar um lugar de cumplicidade social, porém o próprio autor contrapõe,
afirmando que estudos na área da vida social, tem apontado que na realidade
isso não acontece, pois diferentes grupos se a apropriam dos bens culturais de
forma desigual. (CANCLINI, 1994, p. 94)
Essa
realidade pode ser reelaborada a partir de ações oriundas das instituições de
ensino, ainda que, lentamente, através de práticas de educação patrimonial.
Como exemplo, a proposição final dessa pesquisa, que será um manual de
visitação ao Centro Mulheres de Barro, tem como objetivo principal contemplar o
ensino de história, utilizando-se do patrimônio local como fonte de conhecimento
histórico.
A história do Brasil que
não começa com a chegada dos portugueses, muito menos com as delimitações de
fronteiras, muito antes disso já havia uma grande ocupação de diversos grupos
heterogêneos, espalhados por todo território, até então, sem definição. Povos
diversificados habitaram toda a Amazônia e a Região dos Carajás. A arqueologia,
como ciência capaz de compreender um acontecimento de longa duração, comprova
isso por meio da investigação dos diversos sítios arqueológicos encontrados nessa
região.
Os sítios arqueológicos
que são espaços onde encontramos evidências de atividades do passado, são
compostos por objetos que permitem concluir, através de estudos, interferências
culturais as quais podem produzir informações que levem a compreensão de um
passado distante. Como por exemplo, os vestígios cerâmicos encontrados na
região de Carajás, que serão abordados nessa pesquisa. Os fragmentos cerâmicos
arqueológicos, apliques modelados zoomorfos: Rabo de Tatu, Perereca, Filhote de
Papagaio, Cabeça de Jabuti. E de borda com decoração incisa: Casco de tatu,
Espinha de peixe, Pele de cobra e Ponta de flecha. Além das Rodelas de Fuso,
Crivo e o símbolo do centro, aplique modelado antropomorfo Bitoca. A sequência
cronológica obtida através desses objetos situa a presença humana nesta região
entre 4.000 AC e 1.800 AD, indicando 6.000 anos de ocupação na área pesquisada
(Projeto Salobo). Esses objetos arqueológicos, hoje, no Centro Mulheres de
Barro, receberam uma nova ressignificação através das mãos dessas mulheres,
pelas quais transmutam vestígios ancestrais em peças contemporâneas. Essas
ressignificações, ou mesmo reapropriação, podem trazer um novo sentido ao
objeto diferente da utilidade provável dos construídos pelos povos primitivos.
Podem adquirir outras finalidades como por exemplo a função histórica-didática,
ou mesmo a estética ornamental. Sem perder o status de “símbolo da existência
milenar dos povos indígenas” na região (BARRETO, 2020, p. 2).
Tendo um novo contexto,
sem deixar de servir como comunicação de conhecimentos sobre a história dos
primeiros grupos que habitaram essa região. “Uma das premissas mesmo da
Arqueologia é que as pessoas constroem seu mundo social fazendo e transformando
coisas, imagens, lugares e paisagens” (BARRETO, 2020, p. 4). Através das
análises dessas “coisas” podemos compreender as intenções que levaram a criação
de um determinado objeto, assim como, suas características comunicativas que
podem ter uma persistência temporal. O que a Cristiana chama de “objetos resistentes”,
que podem ser reapropriados e ressignificados, resistindo através dos tempos,
como se pudessem permitir um diálogo entre o passado e presente.
Segundo Denise Schaan (2008/2009, p. 59), “[...] a
teoria tradicional de que houve migrações de populações de origem asiática
utilizando-se do estreito de Behring como via de acesso tem sido posta em xeque
[...]”. As outras hipóteses como as que dizem que as primeiras migrações
ocorreram através do mar, se potencializam graças justamente aos sítios arqueológicos
encontrados no sul do continente. Sítios muito mais antigos, como os
encontrados na Serra dos Carajás (região geográfica desse trabalho), tem
mostrado que na nossa Amazônia existem vestígios arqueológicos de populações
paleoíndias.
Na
serra dos Carajás, sul do Pará, escavações realizadas em diversas grutas, a
partir da década de 1980, por pesquisadores do Museu Goeldi, revelaram
vestígios de indústrias líticas, fogueiras e restos de alimentação, como ossos
de pequenos animais e sementes. As datações obtidas mostram uma ocupação
inicial por volta de 9.000 AP, na Gruta do Pequiá, estendendo-se até 6.900
A.P., na Gruta do Gavião. (SILVEIRA; MAGALHÃES, 2005).
Schaan ainda ressalta que “Dez sítios foram datados,
quatro deles com datas entre 10.000 e 9.000 A.P. As ocupações foram de curta
duração, [...] com a presença de cerâmica apenas no Holoceno recente” (SCHAAN,
2008/2009, p. 61). Esses achados arqueológicos encontrados na Amazônia, mais
especificamente no sudeste do Pará, são comumente associados a presença de
populações caçadoras-coletoras, com suas especificidades. As quais, por não
possuírem registros escritos, só podem ser estudadas através da arqueologia.
Ainda que no Brasil, muitas vezes os testemunhos arqueológicos sejam ignorados.
Imagem 3 - Área de realização dos estudos arqueológicos: Floresta Nacional
Tapirapé-Aquiri / Salobo, PA.
Créditos da imagem: Eli Sumida
A pesquisas
arqueológicas, conforme aponta o pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi,
Marcos Pereira Magalhães (2002, p. 5), “[...] colocam Carajás no mapa da
arqueologia sul-americana, através das descobertas efetuadas, reconstruímos o
entendimento que se possuía, até então, sobre a pré-história da Amazônia”. O
entendimento que prevalecia até a década de 1980, era o de que a Amazônia era
inóspita para o ser humano e que as primeiras sociedades eram herdeiras de
culturas de outras regiões. Porém, evidências científicas comprovaram que a
Amazônia possuía culturas com produção de cerâmica própria e, que o homem
passou por mudanças culturais por aqui. Ao se adaptar à floresta, conhecendo e
dialogando com seus recursos.
Em nossa pesquisa, ao
trabalhar com um centro de referência em vestígios arqueológicos cerâmicos e
esses objetos de argila serem expostos e reproduzidos por mãos de talentosas
artesãs, também se preocupa em provocar uma reflexão a respeito da exposição
desses objetos. Tendo em vista, que exposições, de forma geral, podem também
representar ideologias ou estarem a serviço do poder, tendo as mais diversas
significações ou concepções forjadas ao objeto exposto e a forma de exposição.
Portanto, esse trabalho também deve colaborar com os historiadores no sentido
de alertar contra possíveis imaginários da identidade amazônica local e da
possibilidade das transformações e distanciamentos que os objetos podem conter
nas suas reproduções, muitas vezes voltadas ao mercado turístico.
É importante salientar
que “[...] a partir da seleção mental, ordenamento, registro, interpretação e
síntese cognitiva na apresentação visual, ganha-se notável impacto pedagógico”
(ULPIANO MENEZES, 1994, p. 2). Essa possibilidade de “materialização da
história” pode proporcionar e facilitar a produção do conhecimento histórico
através de atividades educacionais. As quais devem instigar a estética, o
olhar, a curiosidade e a comunicação de uma consciência histórica. Com os
devidos cuidados de evitar uma fetichização na análise de determinado objeto.
Em Carajás, diversas
grutas favoreceram a preservação de sítios arqueológicos de caçadores-coletores
com mais de 8.000 anos de idade. Mas, os vestígios encontrados às margens dos
rios Itacaiúnas e Parauapebas, só passaram a ser arqueologicamente estudados a
partir de 1983. Como afirma Marcos Pereira Magalhães:
A história antiga da região de
Carajás começou a ser conhecida a partir da década de 1960, quando Napoleão
Figueiredo (1965), antropólogo do Museu Paraense Emílio Goeldi, analisou uma
coleção cerâmica coletada por Protásio Frikel (1963) em antigas aldeias Xikrin,
nas margens do rio Itacaiúnas. Diagnosticada como uma antiga cultura indígena,
distinta da Kaiapó-Xikrin, que tem ocupado a área em tempos históricos, a
coleção apresentava traços da cerâmica Tupiguarani. Por isso ela foi
relacionada à Tradição Tupiguarani, sendo denominada de Fase Itacaiúnas por um
dos primeiros arqueólogos do Museu Goeldi, Mário Simões, em 1972. Mas foi
somente a partir de 1983 que o Itacaiúnas e o seu afluente Parauapebas,
tornaram-se de fato arqueologicamente conhecidos. (MAGALHÃES, 2002, p. 11)
Às
margens dos rios Parauapebas e Itacaiúnas, e de seus afluentes, foram
encontrados e estudados 52 sítios cerâmicos, onde foi observado pelos
arqueólogos que as primeiras populações da região migravam constantemente, não
possuindo uma noção de propriedade, já que as áreas eram habitadas por outros
povos com culturas parecidas, todos ceramistas e os mais recentes agricultores
que também se utilizavam da caça e coleta e usavam as grutas da região como
base de apoio (MAGALHÃES, 2002).
Heranças
arqueológicas indígenas que dão surgimento ao que é hoje o Centro Mulheres de
Barro no município de Parauapebas e que estão sendo reproduzidas, replicadas
através de talentosas artesãs ceramistas que buscam ser fiéis aos objetos e os
seus traçados originais. Encontrados entre 4.000 AC e 1.800 AD e inseridos na
nossa contemporaneidade por esse centro cultural. Produzindo relações de
pertencimento e valorização do local através de diferentes métodos de ensino.
A falta
de ligação da história ensinada com os elementos da vivência tende a
proporcionar uma aula que não estimula o interesse, gerando até mesmo
questionamentos a respeito da função do ensino de história e do porquê de
estudá-la. Desse modo, o uso de fontes para o ensino de história, em paralelo
ao livro didático pode ser bem-visto como recurso auxiliador de um processo de
ensino aprendizagem plural e inclusivo. (MONTI; SOUSA; VIEIRA, 2021, p. 153).
Sabemos
do problema da falta de interesse de boa parte dos estudantes da educação
básica pelas aulas tradicionais. Notamos, ainda, que ocorre uma dispersão
enorme da atenção entre os estudantes, e isso é uma preocupação de todos e
todas que pesquisam a educação. Na Escola Carlos Henrique, campo dessa
pesquisa, logicamente não é diferente. É difícil manter uma sala de sexto ano,
cheia de crianças, por quase quatro horas, sentados resolvendo exercícios, ou
apenas ouvindo narrativas históricas que por muitas vezes parecem distante
demais da realidade vivida. Precisamos envolvê-los no contexto dos conteúdos,
No
contexto escolar, há indicadores de que a motivação intrínseca desperta e
sustenta processos de aprendizagem da mais alta qualidade, constituindo-se,
portanto, em um objetivo valioso a ser buscado na área educacional. Um
estudante motivado mostra-se ativamente envolvido. (GUIMARÃES; BZUNECK, 2002,
p. 2).
Através
do estudo de diversas experiências de aulas envolvendo o patrimônio cultural,
acreditamos que o patrimônio é sim, uma fonte de conhecimentos históricos que
estimula nos estudantes o gosto pelas ciências humanas. Superando por exemplo,
recursos mais tradicionais como o livro didático. “Trabalhar com novas
metodologias realmente requer sair da zona de conforto, só assim podemos
vivenciar novas habilidades e formas da construção do conhecimento escolar”
(MONTI; BARBOSA; NEVES, 2021, p. 119). E no ensino de história o uso de fontes
em sala de aula é fundamental.
O
professor ao se utilizar da fonte histórica não a utiliza como os historiadores
na academia, mas com o objetivo de levar o aluno a perceber como se constitui a
história, como os conteúdos históricos se contextualizam com essa fonte. A
fonte torna-se então, uma ferramenta psicopedagógica que poderá certamente
auxiliar o professor na difícil tarefa de estimulação do imaginário do aluno na
aprendizagem da história. (XAVIER; CUNHA, 2011, p. 3).
Para
o professor-pesquisador, o uso de fontes históricas, como os vestígios
cerâmicos, patrimônio cultural material da Região de Carajás, trabalhados no
Centro Mulheres de Barro, é um caminho a ser percorrido na dinâmica das aulas e
consequentemente resultam em aprendizagens significativas. Essa prática docente
de novas abordagens das fontes estimulam a maior participação dos estudantes,
sendo assim, a utilização da cultura material no ensino de história, uma
alternativa viável para superação de dificuldades tanto no ensino como nas
aprendizagens. Essas fontes proporcionam a percepção dos estudantes na
participação de toda a sociedade na construção do processo histórico.
A
utilização dessas fontes, como recursos pedagógicos colaboram para a percepção
e compreensão da diversidade histórica. A tarefa do professor, é fomentar a
dúvida, para que o aluno comece a enxergar a história como algo ilimitado, com
várias narrativas e diversas formas de pensar historicamente, pois acreditamos
que a ação está sempre no aluno e como ele interpreta os acontecimentos que os
cercam. (MONTI; BARBOSA; NEVES, 2021, p. 119).
Para
o autor Fernando Catroga (2001) no seu livro: “Memória, história e
historiografia”, a palavra “traço” é sinônimo de patrimônio/monumento. E
segundo Ana Figurello, “O termo que antes era usado para se referir a uma
sequência de rastros deixados pela passagem de animais, ganhou uma extensão
mais ampla ao ser empregado para se falar sobre qualquer vestígio humano,
voluntário ou não” (FIGURELLO, 2016, p. 19). E justamente esses rastros,
vestígios, que remontam um passado distante, quando aproximados dos estudantes,
possibilitam uma verdadeira aproximação da história, envolvida em um pequeno
pedaço de cerâmica, que torna esse conhecimento histórico muito mais
interessante. Principalmente para estudantes do município de Parauapebas, que
por vezes, o pouco que conhecem da história da cidade, está sempre referenciado
à exploração mineral da Vale e seus reflexos migratórios para a região.
O
próprio termo “patrimônio” que ainda é muito discutido devido a sua
abrangência. Tanto quando se refere a bens, propriedades, quanto a referencias
histórico-culturais. Ambos com o sentido de pertencimento, de guarda e de
preservação. Claro que o que nos interessa aqui é a segunda noção, mais
especificamente o patrimônio material que pode ainda ser protegido pelo estado
através dos registros e tombamento[4] feitos pelo IPHAN. Segundo
François Hartog (2006),
A busca
incessante pela patrimonialização de coisas diversas (e com representatividades
ainda mais diversificadas) ocorre no momento em que o futuro passa a apresentar
uma ameaça de esquecimento para o presente (futuro passado), o que explicaria
essa busca constante pelo registro das coisas e dos eventos do presente.
(HARTOG, 2006, p. 261)
O
autor também denomina essa busca de “presentismo”, um certo exagero em
preocupar-se com a preservação do presente através de registros que possam ser
lembrados no futuro. Por meio do patrimônio podemos estudar e compreender uma
determinada sociedade, considerando as complexidades dos diversos grupos
sociais e as formas de apropriação desses conhecimentos. Considerando mais uma
vez, o olhar do historiador e de outros profissionais envolvidos. Isso é o que
buscamos também nesse trabalho, uma compreensão arqueológica da história de
Parauapebas através do estudo dos patrimônios trabalhados no Centro Mulheres de
Barro, como fonte para se conhecer os primórdios local.
Nas
turmas de sexto ano, ou até mesmo em outras do ensino fundamental, é comum nas
aulas de história, surgirem perguntas feitas pelos estudantes, como:
“professor, é verdade mesmo isso? ”, “isso aconteceu, ou existiu mesmo? ”, “tem
provas disso? ”, e mais uma infinidade de dúvidas relativas à concretização do
conhecimento histórico.
O
que é fato e o que são hipóteses devem ser também devidamente trabalhados com
esses discentes para que possam ter uma melhor compreensão da história. “O que
é história? ” É um dos primeiros conteúdos dessas turmas. Baseados nessas
inquietações e nas possibilidades curriculares dessas turmas é que consideramos
os vestígios encontrados em sítios arqueológicos da região, objetos testemunhos
da história local, que podem e devem interagir com o ensino de história nesse
nível do ensino fundamental e em Parauapebas temos o trabalho e ações de
conscientização desenvolvidos pelo Centro Mulheres de Barro, que além de um espaço para exposição promove a
formação artístico-cultural, por meio de oficinas, visitas e ações educativas
patrimoniais que visam resgatar e dialogar com ao patrimônio
arqueológico, mas que tem pouca inserção nas escolas locais, de tal modo,
buscamos neste trabalho diminuir esse distanciamento.
Podemos
então ressaltar que desde a Carta de Veneza de 1964, da qual o Brasil foi
signatário, não só grandes monumentos e conjuntos arquitetônicos tiveram valor
patrimonial, mas também os objetos e vestígios arqueológicos adquiriram um
maior reconhecimento da sua importância cultural e histórica.
A
noção de monumento compreende não só a criação arquitetônica isolada, mas
também a moldura em que ela é inserida. O monumento é inseparável do meio onde
se encontra situado e, bem assim, da
história da qual é testemunho. Reconhece-se, consequentemente, um valor
monumental tanto aos grandes conjuntos arquitetônicos, quanto às obras modestas
que adquiriram, no decorrer do tempo, significação cultural e humana. (CARTA DE
VENEZA, 2004)
Dessa forma então, os vestígios cerâmicos tratados
nesse trabalho, assumem a função e importância quanto ao seu conhecimento
histórico, não só como fonte histórica, mas também, como um recurso pedagógico.
De acordo com Márcia Chuva (CHUVA, 2008), essa ampliação da noção de
patrimônio, possibilita um leque muito maior e diversificado de objetos e
interpretações, que superam aquela perspectiva da identidade nacional unívoca.
Como afirma Lucien Febvre, “A História faz-se [...] com tudo aquilo que,
pertencendo ao homem, depende do homem, serve o homem, exprime o homem,
significa a presença, a atividade, os gostos e as maneiras de ser do homem. ”
(FEBVRE, 1989, p. 249).
Portanto, acreditamos que o uso do patrimônio e das
perspectivas e ações do Centro Mulheres de Barro, contribuem efetivamente para
o processo de ensino e aprendizagem qualitativa e significativa da história de
Parauapebas. Pois,
A
temática do Patrimônio na educação se constitui como uma oportunidade de
criação de reflexões e questionamentos sobre a identificação de determinados
bens culturais em detrimento de outros. Permite também incluir os estudantes
como agentes históricos sociais e produtores de cultura, debatendo as
implicações da invisibilidade étnica-racial construída pelas narrativas de
predomínio de um Patrimônio Histórico e Cultural representante dos setores
hegemônicos. A valorização de memórias étnicas e culturais diferenciadas
contribuem para a pluralidade de representações e do convívio de identidades
múltiplas. (RAMOS, 2016, p. 29)
Dessa
forma, essa pesquisa busca conhecimentos históricos através do entrelace entre
patrimônio e ensino de história. Perspectivas que vão além da conscientização e
preservação, abordagens que tratem o patrimônio como fonte de conhecimento
histórico, identidade e reflexão. Conhecimentos não prontos e acabados, mas sim
reflexões e contribuições significativas para as aprendizagens, que acreditamos
que podem ser almejadas e alcançadas através do despertar do interesse pela
história. E esse estímulo pode ser fomentado através da educação patrimonial e
da relação da escola com o Centro Mulheres de Barro.
2.2 – O ensino de História através da
Educação Patrimonial.
A educação patrimonial
nessa pesquisa de mestrado do ProfHistória, visa dialogar com a problemática
exposta anteriormente, assim como, com as reflexões e análises feitas nesse
trabalho. É um vivenciar de novas possibilidades de construção do conhecimento
histórico local e de identidades. Para isso, consideraremos o conceito do Guia
de Educação Patrimonial do IPHAN:
Trata-se de um
processo permanente e sistemático de trabalho educacional centrado no Patrimônio
Cultural como fonte primária de conhecimento e enriquecimento individual e
coletivo. A partir da experiência e do contato direto com as evidências e
manifestações da cultura, em todos os seus múltiplos aspectos, sentidos e
significados, o trabalho da Educação Patrimonial busca levar as crianças e
adultos a um processo ativo de conhecimento, apropriação e valorização de sua
herança cultural, capacitando-os para um melhor usufruto destes bens, e
propiciando a geração e a produção de novos conhecimentos, num processo
contínuo de criação cultural. (HORTA; GRUMBERG; MONTEIRO, 1999, p. 4)
Esse conceito é bem
amplo, e a partir dele podemos abordar diversas e necessárias reflexões para
melhor usufruto do patrimônio local de Parauapebas. O guia ressalta que é um
processo de trabalho educacional, portanto, a educação patrimonial deve ser
dinâmica. Um processo educacional que deve estar em constante movimento, como
já acontece no Centro Mulheres de Barro. Esse referido conhecimento,
apropriação e valorização da herança cultural, pode ser instigado de diversas
formas através das evidências arqueológicas citadas nesse trabalho e das
múltiplas possibilidades de contato direto com esses vestígios cerâmicos
trabalhados no centro que podem ser analisados e utilizados como fontes
históricas a serviço do conhecimento escolar e da construção do processo
histórico de Parauapebas.
O guia também busca
caracterizar a Educação Patrimonial como “um instrumento de alfabetização
cultural”. Ou seja, uma espécie de recurso didático que possibilita aos
discentes, no caso os de sexto ano, aprendizagens e conhecimentos sobre o mundo
que os rodeia. Mostrando assim, o quanto todos nós estamos inseridos na
história, e ela, como disciplina é muito importante para a compreensão do nosso
universo sociocultural e toda a trajetória humana.
Em Parauapebas, essa
conscientização é ainda mais importante. Devido a cidade ter uma emancipação
considerada recente e
ser um local multicultural. Há a necessidade de se reconhecer essa diversidade
e ao mesmo tempo o processo histórico das ocupações que transformaram esse
local em uma cidade com tantas culturas presentes. Para isso, podemos utilizar
os vestígios arqueológicos encontrados na região como objetos (patrimônios
materiais) que, através da observação, análise e estudo, são uma rica fonte de
informações. Traz consigo todo um contexto histórico-temporal e sistema de
relações de uma sociedade que deve ser bem explorado do ponto de vista
pedagógico. Os vestígios cerâmicos encontrados no solo de Carajás não são
somente pedaços de argila. São pedaços da própria história de Carajás.
A Educação Patrimonial
é um caminho que pode sim despertar a curiosidade, reflexão e percepção dos
discentes sobre o passado dessa região. Segundo Pesavento (2005),
Todo traço do
passado possui em si uma sucessão de temporalidades objetivas acumuladas, ou
seja, as marcas da passagem dos anos e do seu uso e consumo pelos atores
sociais que percorreram este espaço. Mas, embora seja importante datar estas
camadas históricas, como por exemplo, no caso de um determinado espaço
construído, importa também atingir as temporalidades subjetivas que este espaço
urbano contém, dado pelas experiências do vivido, pelos sentidos conferidos a
este espaço, tornando-o qualificado, como um lugar no tempo. (PESAVENTO, 2005,
p.13).
Para desenvolver o
discernimento dessas experiências de um lugar no tempo, é importante também
aguçar as sensibilidades. Pensar nas memórias e no sentimento de coletividade,
compreendendo como sujeito intrínseco dessa sociedade. É como se fosse buscar
as origens mais remotas de onde se vive e a partir de então ter um novo olhar
sobre a história e cultura. A Educação Patrimonial através das suas ações e
estratégias educativas,
Têm a
potencialidade de criar condições para a produção de sentidos e de
sensibilidades por parte das crianças e dos adultos em relação a determinado
saber, lugar, celebração, objeto ou manifestação cultural, a fim de construir
relações socioafetivas e reflexivas com o passado. (CARDOZO, 2020, p. 33).
Podemos também
compreender a Educação Patrimonial, como a junção do trabalho do ensino de
história e o patrimônio cultural. Falar para crianças de 11 a 12 anos sobre
vestígios arqueológicos como fontes de estudo e conhecimento para a história, e
em seguida mostrar exemplos muito distantes no livro didático, é certamente uma
discrepância que dificilmente contribuirá para o despertar sentimental de
interesses pela disciplina de história. Uma estratégia de sucesso para inserir
os alunos e alunas nesses estudos históricos, certamente é o trabalho
educacional através do patrimônio cultural local. O qual, de fato, aproxima a
história arqueológica dos discentes e permite uma reflexão das vivências dos
sujeitos em um tempo passado. E essa possibilidade é viável através do Centro
Mulheres de Barro, no qual o passado e o presente se entrelaçam através do
contato, conhecimento e reconhecimento, dos vestígios ancestrais e das réplicas
cerâmicas de peças que fizeram parte das primeiras sociedades que habitaram a
região de Carajás e, que hoje estão inseridas no nosso presente. Sempre, claro,
com um posicionamento crítico e analítico desses objetos.
Essa estratégia de
ensino dificilmente é encontrada nos livros didáticos de história, porém, não é
inexistente. Na prática, o docente do chão de escola quando se percebe a
necessidade de se estudar a história local, ou quando busca um encantamento
pelo conhecimento histórico, a prática da educação patrimonial é um recurso
muito utilizado. E em quase todas as experiências pesquisadas ou
experimentadas, esse contato direto com o patrimônio cultural traz resultados
exitosos que vão além do conhecimento e valorização da herança cultural.
A partir da experiência
com os alunos de sextos anos da Escola Carlos Henrique, sabemos que romper com
o formato tradicional da sala de aula frontal, já nos traz resultados
diferentes e positivos.
Considerando que o
objetivo do ensino de história regional e local, por exemplo, é o de auxiliar
na construção de identidades, pode-se constatar que o livro didático –
construído de forma generalizante – não oferece sozinho suporte teórico e
metodológico suficiente para trabalhar as especificidades que fazem parte da
rotina dos alunos. (MONTI; SOUSA; VIEIRA, 2021, p. 153)
Ao se trabalhar com fontes materiais, patrimônios
materiais, consegue-se muitas boas experiências. Contudo, é necessário também
ater-se aos problemas e desafios que podem surgir, principalmente no caso em
questão, quando usamos as fontes arqueológicas. Para Pedro Paulo Funari (2008),
A evidência não constitui conhecimento histórico
disponível e pronto, que pode ser simplesmente engolido e digerido pelo
historiador. As fontes tornam-se úteis como fatos históricos apenas quando o
historiador as submeter a uma série de conhecimentos contextualizados que ele
já possui. (FUNARI, 2008, p. 94)
Portanto, isso deve ser
previamente trabalhado de forma clara com os estudantes. Para que eles
compreendam então, a questão do historiador sobre uma fonte. Considerando as
problemáticas levantadas, a questão de espaço e tempo e as especificidades dos
grupos sociais. No caso especifico do Centro Mulheres de Barro, já houve um
estudo arqueológico e histórico sobre os vestígios materiais que lá se
encontram. Porém, isso também deve ser explicitado na metodologia abordada com
os discentes.
“A cultura e o patrimônio
são elementos indissociáveis da prática educativa” (CHAGAS, 2006; SILVEIRA E
BEZERRA, 2007) em vista disso, a inserção da temática do patrimônio no ensino
de história é complexa, mas favorece a criação de propostas de valorização dos
patrimônios culturais a partir de práticas de educação patrimonial. Como a que
será proposta ao final desse trabalho, uma visita guiada ao Centro Mulheres de
Barro, buscando facilitar e conduzir o acesso ao centro, de
forma que as visitações sejam mais proveitosas no aspecto do processo educativo
e do despertar à história. Indo muito além do livro didático e relacionando a
história do presente com as experiências de outras sociedades. Para Flávia
Caimi e Francielle Cassol (2021),
[...] os artefatos que os seres humanos criam,
produzem, utilizam e consomem, dizem respeito não só a sua trajetória histórica
como também à construção da sua identidade. Diante de tais premissas, é tarefa
do historiador/professor inserir a cultura material no processo historiográfico
de produção do conhecimento. (CAIMI; CASSOL, 2012, p. 285)
Os vestígios cerâmicos, já mencionados, são fontes
materiais que como tal, precedem uma gama de conhecimentos históricos da região
dos Carajás. Podemos afirmar que comprovam as primeiras migrações para a região
e marcam a trajetória histórica dos seres humanos nesse local. Então, de fato,
o patrimônio cultural é instrumento de produção de conhecimento histórico que
deve ser utilizado pelo historiador/professor. A educação patrimonial é muito
mais que valorização e preservação do patrimônio, é um vetor de aprendizagens
históricas já previsto no currículo municipal e nacional, oportuno ao
conhecimento histórico local.
A educação patrimonial suscita questões e propostas
para a educação básica. Portanto, devemos pensar o patrimônio como documento
para ensinar história, instigando nossos alunos com práticas criativas e
inovadoras. Aulas que rompam os muros da escola, ou ao menos fujam do ensino
frontal das tradicionais salas de aula. Na escola Carlos Henrique, palco dessa
pesquisa, quase sempre que são oferecidas aulas e dinâmicas diferentes, são obtidos resultados de aprendizagens e
envolvimento bem melhores do que nas aulas tradicionais. O que nos incentiva e
impulsiona para o exercício educacional por meio de reflexões oriundas do
patrimônio. Conforme afirmam Gil e Pacievitch (2015), “[...] a educação ocorre
em diversos contextos e de diferentes formas. Proporcionar experiências e
reflexões sobre as relações entre patrimônio cultural e ensino de história não
poderia ocorrer somente nas salas de aulas fechadas” (GIL. PACIEVITCH. 2015, p.
33).
Pensar em educação patrimonial é também pensar o tempo
da cultura. Como os seres humanos viviam, compreender através de objetos,
sociedades e modos de vida, é compreender a nossa própria historicidade. Essa
compreensão para os estudantes de sexto ano é fundamental no despertar ao
ensino e ao conhecimento de história. É mostrar que podemos aprender não
somente através de textos, mas também através da subjetividade dos objetos. O
que nos leva a refletir e pesquisar, pilares fundamentais para o conhecimento
histórico. Esses objetos/documentos aproximam de fato, os alunos e alunas ao
passado histórico de Parauapebas.
Podemos pensar nesse trabalho a educação patrimonial
não só como foco de reflexão, mas também de ação. Uma relação proveitosa entre
teoria e prática, ultrapassando os limites físicos da sala de aula em busca de
aprendizagens históricas significativas. E ainda, contemplar o que espera o
ProfHistória no que se refere aos diferentes usos da informação de natureza
histórica. Como salienta Gil e Pacievitch (2019),
Tal descrição permite inferir que temas como educação patrimonial,
consciência histórica, história pública e didática da História são
protagonistas em potencial das pesquisas defendidas no Programa. Concretamente,
uma das três linhas de pesquisa chama-se “Saberes Históricos em Diferentes
Espaços de Memória”, em cuja ementa não aparece a expressão educação patrimonial,
mas repete-se a preocupação com os usos do passado. (GIL; PACIEVITCH, 2019, p. 282)
Baseado nessas
afirmações teóricas e reflexões de toda a pesquisa, e visando aprendizagens
significativas através da educação patrimonial,
concluiremos com a proposição de um produto a ser utilizado como instrumento de
ensino e aprendizagens nas aulas de história em Parauapebas. Um manual de
visitação ao Centro Mulheres de Barro que contemple o que foi almejado nessa
pesquisa de pós-graduação.
[...] para que os
estudantes reconheçam e se apropriem desse patrimônio (...) reflitam ou criem
outras propostas. (...) momentos de exposição sobre o bem cultural em questão,
cotejamento com outros tipos de documentos, discussões, leituras de textos informativos
e exercícios de recuperação de informações. (GIL; PACIEVITCH, 2019, p. 288)
Ressaltando, que o
produto final não pressupõe “[...] que basta o contato com os bens patrimoniais
para que espírito crítico, pensamento histórico e cidadania se desenvolvam”
(GIL; PACIEVITCH, 2019), mas serão as discussões, problematizações e
metodologias propostas realizada em sala de aula que sistematizarão o uso desse
produto. De forma que venha contribuir com um ensino de história conectado à
vida e que desperte a consciência cidadã dos estudantes. Não somente conhecer,
valorizar e preservar o patrimônio local. Mas, como diz Mário Chagas:
[...] interessa
pensar a educação como alguma coisa que não se faz sem se ter em conta um
determinado patrimônio cultural e determinados aspectos da memória social, para
além da educação patrimonial, interessa compreender a educação como prática
social aberta à criação e ao novo, à eclosão de valores que nos habilite para
a alegria e a emoção de lidar com as diferenças. (CHAGAS, 2004, p.145)
É justamente essa
prática além da educação patrimonial que buscaremos através da proposição do
nosso produto final, prática que ensine o conhecimento histórico através do
patrimônio e que também sensibilize os estudantes não só a conhecer, valorizar
e preservar. Mas também, a se identificar como sujeito histórico partícipe da
história local. A educação patrimonial será colocada em prática através do uso
e aplicação de um manual para visitação ao Centro Mulheres de Barro.
Contemplando dessa forma, as aulas de história dos sextos anos com o currículo
municipal através do Centro.
2.3- O plano de ensino de história
municipal e o Projeto Mulheres de Barro
As orientações curriculares para o ensino de história
no Brasil seguem uma hierarquia. Existe a base nacional (BNCC), que orienta os
currículos municipais. E esses, devem ser praticados em sala de aula.
Logicamente, também devem ser discutidos e construídos em parceria com os
professores e outros interessados. Mas, nem sempre é o que acontece. Em muitos
casos são impostos pela secretaria de educação e sua execução cobrada através
dos coordenadores pedagógicos das escolas.
Como afirma Tomaz Tadeu da Silva, “[...] o currículo
é, definitivamente, um espaço de poder. O conhecimento corporificado no currículo
carrega as marcas indeléveis das relações sociais de poder” (SILVA, 2010, p.
147). Esse domínio ideológico que o currículo exerce, o transforma também em um
instrumento de dominação política. Um aparato a serviço do poder que seleciona
o que considera importante, ou não, aprender. Como ratifica, Silva:
O
currículo é uma invenção social como qualquer outra: o Estado, a nação, a
religião, o futebol. Ele é o resultado de um processo histórico. Em determinado
momento, através de processos de disputa e conflito social, certas formas
curriculares – e não outras – tornaram-se consolidadas como o currículo. [...].
É também através de um processo de invenção social que certos conhecimentos
acabam fazendo parte do currículo e outros não. (SILVA, 2010, p. 148)
No município de Parauapebas-PA, atualmente, não há um
documento curricular municipal oficial em vigência. Porém, existe um documento
norteador para o ensino de história que é o ‘Plano de Ensino de História’. Um
plano de ensino semestral, considerado como um plano de ação, em que consta o
registro do planejamento das ações pedagógicas para o componente curricular.
Elaborado pela Secretaria de Educação de Parauapebas, através da Diretoria
pedagógica e o Departamento de 3º e 4º Ciclos. Documento que analisaremos como
base oficial do ensino de história no município.
Logo na segunda página do Plano de Ensino, o
Departamento de Ensino de 3º e 4º Ciclos ressalta que o plano está em
consonância com o ‘Documento Curricular do Município de Parauapebas’ (que no
momento é inexistente) e ‘BNCC’. Realmente, assim como outros instrumentos
curriculares, o Plano de Ensino, seleciona as aprendizagens que considera
essenciais para a continuação dos conteúdos dos anos de ensino posteriores.
Porém, destaca que: “É um documento em construção, com ações estratégicas e
reflexivas, que no decorrer de seu percurso de aplicação, podendo ser revisado
em função das aprendizagens dos alunos” (SEMED, 2021, p. 1). O que concede
autonomia aos professores e professoras, e abre espaço para a aplicação do
produto dessa pesquisa.
O Plano de Ensino Semestral de História traz em sua
justificativa a importância de se trabalhar com objetos como fonte histórica
para os alunos do 6º ano:
A utilização de
objetos materiais pode auxiliar o professor e os alunos a colocar em questão o
significado das coisas do mundo, estimulando a produção do conhecimento
histórico em âmbito escolar. Por meio dessa prática, poderão desempenhar o
papel de agentes do processo de ensino e aprendizagem, assumindo, ambos, uma “atitude
historiadora” diante dos conteúdos propostos, no âmbito de um processo adequado
ao Ensino Fundamental. (SEMED, 2021, p. 4)
E ainda, contempla a proposta desse
trabalho nos seus objetivos quando aponta que:
[...] pensar a
diversidade dos povos e culturas e suas formas de organização. A noção de
cidadania, com direitos e deveres, e o reconhecimento da diversidade das
sociedades pressupõem uma educação que estimule o convívio e o respeito entre
os povos. Permitindo assim, a formação de um aluno reflexivo sobre a História e
suas formas de registro. (SEMED, 2021, p. 5)
Assim, a proposta de se trabalhar educação
patrimonial através do Centro Mulheres de Barro, se alinha perfeitamente com a
perspectiva de ensino de história da Secretaria de Educação de Parauapebas.
Tanto na questão da utilização de objetos materiais como fontes documentais de
história, como meio de estimular a produção do conhecimento. Como também, do
conhecimento das formas de registros históricos e da diversidade dos povos e
culturas que formam o multiculturalismo da cidade de Parauapebas.
O projeto Mulheres de Barro foi pensado
nessa pesquisa, como facilitador das aprendizagens históricas concernentes a
alguns conteúdos básicos do 6º ano. Devido a sua perspectiva na relação entre
passado e presente na Região de Carajás. Esse projeto (Mulheres de Barro),
consegue através das mãos empoderadas de suas artesãs, tomar a história e a
memória em suas mãos, pelas
quais transmutam vestígios ancestrais em peças contemporâneas. O que certamente
desperta o cognitivo dos estudantes e os atrai e aproxima para uma história do
homem primitivo fora dos livros. História que se passou e passa no espaço ao
redor desses alunos. E que através de aulas utilizando esse patrimônio
histórico de Parauapebas, torna-se bem mais viável o aprendizado e o interesse
pela disciplina de história e pelo conhecimento da história da cidade em que
moram, e da região de Carajás.
A ementa do Plano de Ensino semestral 2021,
deixa claro a importância de um despertar para a disciplina de história e o
conhecimento histórico que os estudantes devem adquirir no 6° ano. Questões de
compreensão da noção de espacialidade e temporalidade, organizações de
sociedades e suas particularidades que o tornam caracteristicamente diferentes de
outras. Proporcionando uma diversidade cultural e identitária.
Para as aprendizagens voltadas para o 6º ano (I Semestre), são
recuperados aspectos da aprendizagem do Ensino Fundamental, de forma que ocorro
o aprofundamento dos Anos Iniciais no que corne ampliar a ênfase no pensar a
diversidade dos povos e culturas e suas formas de organização. A Noção de
cidadania, com direitos e deveres, e o reconhecimento da diversidade das
sociedades pressupõem uma educação que estimule o convívio e o respeito entre os
povos, para assim, poder discutir procedimentos próprios da História, abordando
desde a importância dos estudo do componente curricular (a importância de
estudar História) , passando pela questão do tempo e memória, para abordagem do
registro das primeiras sociedades e a construção das organizações das primeira
civilizações, com a necessária contraposição com outras sociedades e concepções
de mundo, esse exercício para aquisição de conhecimento, dera-se por meio da
análise das formas de registro da história e da produção do conhecimento
histórico. (SEMED, 2021, p. 5)
Esclarecer aos estudantes a importância de
estudar história, é uma missão dos professores em turmas de 6º ano. E na turma
pesquisada especificamente, é uma missão ainda mais complexa, devido as
circunstâncias atuais da referida turma, que não esteve fisicamente junta, em
face da pandemia e, é composta por 25 crianças na faixa etária de 11 anos. É
uma turma bastante heterogênea, com estudantes que demonstram bastante
interesse nos conteúdos e outros que parecem não se importar, assim como,
alguns demonstram dificuldades de aprendizagem apesar de se considerar os
ritmos diferentes de aprendizagem.
Nessa turma precisamos pensar e proceder
sempre considerando as diferenças, e em tempos de ensino remoto isso é bem mais
complexo e exige muito mais dos docentes. Apesar do conhecimento prévio da
disciplina adquirido no ensino fundamental menor[5], o
professor licenciado em história tem o dever de apresentar a disciplina de uma
forma mais específica, detalhada e atraente. Os conceitos básicos devem ser bem
trabalhados, pois são fundamentais para o despertar do conhecimento e interesse
histórico. E o estudo da história local é um instrumento facilitador do
processo de ensino e aprendizagem.
O Centro Mulheres de Barro, dentro dessa
perspectiva de aprendizagem, é uma opção de recurso pedagógico para as
aprendizagens básicas em história. Através do centro e do projeto Mulheres de
Barro, podemos trabalhar a cultura local, desde os primeiros habitantes da região
(os primórdios de Carajás); partir para a questão das diversidades dos povos
que compõem a cidade de Parauapebas; a organização das primeiras sociedades; a
questão do tempo e espaço; noções do trabalho do historiador e de outros
profissionais relacionados à história; a relação entre passado e presente
(mudanças e permanências); as questões indígenas; patrimônio cultural e a
importância da sua preservação e valorização; noções de arqueologia e
antropologia; olaria; e também o uso e análise de formas de registros
históricos, fontes históricas materiais e produção de conhecimento histórico.
Levando em conta a subjetividade dessas fontes.
Essas
diversas possibilidades de entrelace entre a pesquisa, o Centro Mulheres de
Barro e as aprendizagens concernentes ao 6º ano, também estão contempladas na
ementa do Plano de Ensino para o 6º ano fornecido pela Secretaria Municipal de
Parauapebas e elaborado pelo departamento de 3º e 4º ciclos, que conta com uma
coordenadora técnica para a disciplina de história. E na ementa redigida pelo
departamento, confirma o referido entrelace, quando diz que:
Dessa forma, os
alunos perceberão o ensino de História, como fundamental e passará a utiliza
diferentes fontes e tipos de documento (escritos, iconográficos, materiais,
imateriais) compreendendo a relação tempo e espaço e das relações sociais que
os geraram. Os registros e vestígios das mais diversas naturezas (mobiliário,
instrumentos de trabalho, música etc.) deixados pelos indivíduos carregam em si
mesmos a experiência humana, as formas específicas de produção, consumo e
circulação, tanto de objetos quanto de saberes. Nesse percurso, os alunos
aprofundarão seus conhecimentos ao utilizar o conhecimento histórico para
compreender os elementos culturais formadores das primeiras sociedades humanas
e/ou civilizações e suas implicações com o presente da humanidade, ou seja,
terão condições de compreender a formação do local onde vive, reconhecendo por
meio do Patrimônio; Característica da sociedade e a sua formação, a partir dos
achados arqueológicos dos primeiros povos que habitaram a região. Isso
despertará a consciência da importância da seguridade dos direitos pessoais e
sociais da sociedade, bem como despertar o sentimento de pertencimento pelo
local onde vive. Nessa dimensão, o objeto histórico transforma-se em exercício,
em laboratório da memória voltado para a produção de um saber próprio da
história. (SEMED, 2021, p. 5)
Perceber o ensino de
história como fundamental, é o que almeja todos os professores dessa disciplina
que se dedicam, não só a ensiná-la como conteúdos didáticos. Mas, que a
utilizam como instrumento de transformação de alunos em sujeitos críticos.
Capazes de perceber, através da história, o mundo ao seu redor com um olhar
diferenciado e reflexivo, uma nova perspectiva. Isso é possível por meio de
aulas utilizando o patrimônio histórico, como o utilizado no Centro Mulheres de
Barro, por exemplo.
O Centro Mulheres de
Barro foi implantado em 2016 por meio da Lei Rouanet e empresa Vale, como uma
contrapartida obrigatória devido a exploração mineral da região. E desde então,
tem parceria com a SEMED em suas ações educativas patrimoniais e culturais, tem
os estudantes da rede pública como um dos públicos-alvo. Esse centro é
proveniente das oficinas de cerâmica do Programa de Educação Patrimonial, que
iniciou nas vilas, próximas aos sítios arqueológicos e se estenderam até
Parauapebas através da Cooperativa de Beneficiamento de Gemas, Joias e
Artesanato Mineral e Orgânico de Parauapebas (Art’sCoop), fundada em 2008. Essa
cooperativa “[…] foi constituída a partir da articulação de
artesãs locais em torno do processo de salvaguarda do patrimônio arqueológico,
[...] que se deu pelo Programa de Educação Patrimonial para a área do Projeto
Salobo[6],
realizado entre 2005 e 2011 [...]” (MULHERES DE BARRO, 2020). Essas artesãs
adquiriram então, noções de arqueologia e estudo exaustivo dos artefatos
cerâmicos encontrados. Com o intuito de aprenderem os desenhos, pinturas,
gravuras e produção da cerâmica. Desde a retirada da argila até a produção das
peças de forma totalmente manual, acordelamento e modelagem. “O acordelamento
consiste na elaboração de roletes de argila, que vão sendo sobrepostos e
posteriormente modelados até a forma final da peça. Na modelagem, a peça é
trabalhada livremente” (CENTRO MULHERES DE BARRO, CATÁLOGO, 2018). As técnicas
de decoração também seguem as dos artefatos originais. O centro tem entre os
seus objetivos, difundir a educação patrimonial e artesania cerâmica, auxiliar
o desenvolvimento cultural local através de ações educativas, como rodas de
conversa, exposições e oficinas.
É importante apresentar aqui também, quem são essas mulheres
empoderadas e de mãos talentosas que criam e transformam peças, unindo a
cerâmica contemporânea à ancestral. Essas mulheres de fato, já eram artesãs,
mas usavam outras matérias primas. Mas após os programas de prospecção e
salvamento arqueológico ocorridos na área do Projeto Salobo, iniciaram-se
oficinas de educação patrimonial e técnicas de cerâmica. Coordenadas também por
mulheres: como a professora Janice Lima e pela arqueóloga Maura Imazio da
Silveira (CENTRO MULHERES DE BARRO, CATÁLOGO, 2018). Essas oficinas sobre
patrimônio cultural, seguindo os padrões e orientações do IPHAN,
potencializaram o trabalho dessas mulheres que aprenderam a usar o barro para
criar e reproduzir peças decorativas inspiradas nos vestígios arqueológicos
encontrados na área do projeto. Como por exemplo, a figura denominada ‘Bitoca’
(ver imagem 4). Que estava presente em vários vestígios encontrados no sítio
arqueológico dentro de uma chácara, cujo o proprietário tinha o apelido de
Bitoca, devido a sua feição e seus lábios carnudos. O que levou os arqueólogos
a batizarem a figura (rosto) com o mesmo apelido referente ao dono do sítio.
Essa figura antropomórfica, que possui características
humanas denominada pelos arqueólogos de “Bitoca” é um exemplo também de como os
objetos históricos podem sofrer atribuições diferenciadas através do tempo. Há
possibilidades de que essa feição humana no momento de sua criação original
tenha sido uma espécie de homenagem a algum líder, ou a um grupo específico de
pessoas, com adornos característicos (já que foi encontrada em diversos objetos
na mesma proximidade), ou ainda que tenha sido criado com algum outro
sentimento vivido a época da sua criação pelo seu criador. Hoje no tempo
presente, recebeu outro significado e foi até “rebatizado” com o nome de
Bitoca, homenagem ao proprietário do local onde fora encontrado, como já
falado. E mais ainda, teve uma outra ressignificação, tornou-se símbolo do
Centro Mulheres de Barro e é presente em vários materiais de divulgação e
propaganda do Centro, assim como em diversos objetos produzidos pelas Mulheres
de Barro.
Imagem 4 - Bitoca: símbolo do
projeto Mulheres de Barro
Fonte: www.centromulheresdebarro.com.br, 2021.
Predominam na decoração dessas peças imagens inspiradas nos
apliques criados e utilizados pelos povos ceramistas. Esses apliques podem ter
representações de figuras humanas, como o Bitoca, nome dado pelos arqueólogos
ao sítio onde foi encontrado o ornamento modelado antropomorfo batizado com o
mesmo nome. Bitoca tornou-se símbolo do projeto. Há representações animais, a
exemplo de aves, lagartos, rabo de tatu, e ainda de artefatos do cotidiano, como
as rodelas de fuso e os crivos, ou peneiras. (CENTRO MULHERES DE BARRO,
CATÁLOGO, 2018).
Esses ensinamentos somaram-se ao desejo que elas já tinham de
encontrar referencias ancestrais que caracterizassem uma identidade para o
artesanato local. É importante ressaltar, que as oficinas iniciaram com uma
turma de 45 pessoas, porém o curso quase encerra devido ao grande número de
desistências. Só restaram seis mulheres. E esse grupo de apenas seis, mostrou
sua força e então criou uma marca para si, Mulheres de Barro. Para a partir de
então, se tornarem multiplicadoras desse importante conhecimento adquirido.
“Mulheres”, representando a persistência e “Barro” representando a resistência.
Significados inseridos na logomarca do centro, que representa uma ciranda de mulheres,
como mostra a imagem 5.
E buscaram e conseguiram um espaço específico para a sua
atuação. Para poderem não só produzir e comercializar suas artes ceramistas,
mas também multiplicar esse conhecimento através de oficinas e cursos. Então
criaram o projeto “Implantação do Centro Mulheres de Barro de Exposição e
Educação Patrimonial da Serra dos Carajás”, aprovado em 2013 com a criação de
um CNPJ, que através da Lei Rouanet e patrocínio da Vale, instalaram o
belíssimo Centro Mulheres de Barro de Exposição e Educação Patrimonial. Que foi
inaugurado no dia 12 de novembro de 2016 e é administrado pela Cooperativa dos
Artesãos da Região de Carajás. E é o único centro na região que se dedica à
educação patrimonial através de oficinas, seminários e workshops oferecidos
gratuitamente a comunidade.
Imagem 5 - Significados da logomarca do Centro Mulheres de Barro
Fonte: instagram centromulheresdebarro, 2020.
Quanto a documentação, o Centro Mulheres de Barro está
totalmente legalizado. Com CNPJ, alvará de funcionamento, alvará do meio
ambiente, alvará do ICMBIO (Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade) para resíduos minerais e licença ambiental da argila, a qual
geralmente é recebida através de doações. De derrubadas de morros, construções
de criatórios de peixes, entre outros. Essa argila é disponibilizada ao centro
e ele providencia a retirada e transporte para as suas instalações.
Entre os principais planos e metas do centro, estão a
ampliação do mercado consumidor dos artesanatos confeccionados no centro, o que
já iniciou através de uma plataforma e-commerce no próprio site do centro
(centromulheresdebarro.com.br) e também fortalecer as parcerias com o Museu
Emilio Goeldi (o qual tem a guarda do acervo material dos sítios explorados
aqui), com a Casa da Cultura de Marabá, com Museu de Parauapebas (para o qual o
centro presta serviços esporádicos) e a SEMED Parauapebas, consequentemente com
as escolas, professores e estudantes do município, através das visitações,
oficinas e cursos. Tornando dessa forma o Centro Mulheres de Barro mais
conhecido e fomentando a educação patrimonial na cidade. Exatamente nesse
sentido, essa pesquisa e com efeito o seu produto final, podem colaborar e
incentivar a educação patrimonial na cidade. O centro também atende a pacientes
do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), que utilizam o contato com a argila,
a concentração e as aprendizagens geradas no centro, como terapia contra
depressão.
Esse Centro, que tem uma ótima estrutura física, com salão de
exposições, banheiros, espaços para oficinas, forno, auditório, entre outros.
Fica localizado em uma alameda na feira do bairro Rio Verde, que no momento
está em péssimas condições e não tem visibilidade para quem passa nas ruas ao
seu entorno.
O Centro, fica próximo a escola Carlos Henrique na divisa
entre os primeiros bairros da cidade e frequentada por toda a comunidade
escolar (ver imagem 6). Apesar que a grande maioria dessas pessoas, assim como
boa parcela dos moradores da cidade, desconhecem o belíssimo e importante
trabalho desse centro, daí no nosso interesse em trabalhar e divulgar as ações
educacionais desenvolvidas no centro. O espaço foi construído em um terreno de
uma das cooperadas, com a ajuda do seu esposo, Sandra dos Santos Silva, que
coordena o centro. Em frente ao centro funciona uma feira permanente e as
famílias dos feirantes sempre são convidadas para participarem das oficinas,
nas quais, alguns filhos e filhas de feirantes, vindo de diversas comunidades
da cidade e zona rural.
Imagem 6 - Imagem de satélite onde podemos localizar a E.M.E.F. Carlos Henrique e
do Centro Mulheres de Barro
Fonte: Google Maps, 2021.
Mesmo ficando em lugar escondido, a frente do prédio gera um grande
impacto visual com o seu entorno. Muitos que por ali passam não sabem
exatamente o que é aquele prédio.
A sua fachada conta com esculturas grandes que representam as
mulheres do centro e o trabalho com o barro, as fontes d’água dentro e fora do
prédio, representam a proximidade com os rios onde os achados arqueológicos
foram encontrados. Como mostra a imagem abaixo:
Imagem 7 - Fachada do prédio do Centro Mulheres de Barro
Fonte: centromulheresdebarro.com.br, 2021.
O Centro Mulheres de Barro tem entre outros objetivos,
fomentar a arte local, difusão e preservação e valorização do patrimônio
artístico-arqueológico da Microrregião de Parauapebas, que corresponde aos
atuais municípios de Parauapebas, Curionópolis, Eldorado dos Carajás, Canaã dos
Carajás e Água Azul do Norte. E ainda objetiva:
A valorização dos mestres artesões e produtores culturais
locais, promovendo o seu aperfeiçoamento, qualificando seus processos e
fortalecendo suas cadeias produtivas, preservando e difundindo os seus saberes,
salvaguardando a memória e o patrimônio imaterial da região; O aprofundamento
da formação de público para o patrimônio material e imaterial da região através
da disponibilização de ações gratuitas de fruição e projetos educativos /
qualificação; O estimulo à reflexão, o debate e o intercâmbio acerca da
pesquisa, ensino e produção no campo do patrimônio artístico-arqueológico da
região e do país; A consolidação do patrimônio artístico-arqueológico,
cultural, mineral e natural da região como instrumento de integração social,
fortalecimento da economia da cultura e do desenvolvimento socioeconômico
local. A Difusão da produção cultural da região, por meio de mostras que
servirão como ferramentas de acesso, resgate, valorização e difusão dos
artistas da microrregião de Parauapebas junto à comunidade dos seus respectivos
municípios e região. (MULHERES DE BARRO, 2020).
E para se buscar alcançar esses objetivos almejados, o centro
traça e executa algumas ações estratégicas, como por exemplo, rodas de
conversas, seminários, oficinas, apresentações teatrais, musicais, folclóricas,
exposições e outras mais. Cabe aqui destacar, as exposições arqueológicas e as
oficinas cerâmicas (lembrando que todas são gratuitas).
As oficinas de “Artesanato em Semente”, com espécies
coletadas de forma responsável; “Tecelagem em fibras naturais”, que tem em
abundância em Parauapebas; “Artes Plásticas e artesanais contemporânea”; “Artes
visuais – iniciação”; “Educação Patrimonial” e “Artesania cerâmica”, as quais
destacaremos. Há ainda, cursos de cerâmica, desenho, pintura e bordado. Ressaltando que todas oficinas e cursos tem
aulas teóricas e atividades práticas, que além do conhecimento podem
proporcionar um meio de geração de trabalho e renda aos participantes.
As oficinas de educação patrimonial são voltadas para o
público de crianças e adolescentes, entre 9 e 15 anos. A metodologia utilizada
também é desenvolvida entre teoria e prática e visam sensibilizar os envolvidos
para a preservação dos patrimônios, vínculos e sentimentos de pertencimento ao
local.
Ainda oferecem as oficinas de iniciação a artesania cerâmica,
aberta a todos os públicos. As oficinas têm duração de 4 a 6 meses, com turmas
de 20 estudantes, e os concluintes recebem certificados de carga horária de 100
horas. Além dos conteúdos teóricos disponíveis, proporciona também o manuseio
da matéria prima. Proporcionando os modos antigos e contemporâneos de se
trabalhar com a argila e imprimindo uma identidade cultural dessa cerâmica.
Utilizando as formas, pigmentos naturais indígenas, brilho e grafismos dos
achados arqueológicos da região.
Todas essas ações,
proporcionam a possibilidade de interação do centro com a ementa do Plano de
Ensino da SEMED, que ainda reitera: “[...] o objeto histórico transforma-se em
exercício, em laboratório da memória voltado para a produção de um saber
próprio da história” (SEMED, 2021, p. 5). No contexto dessa pesquisa, o objeto
histórico pode ser os materiais de argila armazenados e replicados no Centro
Mulheres de Barro, artefatos, utensílios, resultados da ação humana. E esse
“laboratório da memória”, pode ser concebido através do “[...] exercício
da memória – pensar e repensar o passado – deve possibilitar a reflexão sobre
quem somos e queremos ser – nossas identidades” (REZNIK, 2016, p. 3). Nessas
perspectivas, a pesquisa visa a produção de um saber próprio da história.
Esses objetos
físicos (ver imagem 8n ) são vestígios materializados em formas diversas, seja,
pela utilização de figuras antropomorfas, zoomorfas ou pelos grafismos puros,
são provenientes de povos que habitaram as proximidades do rio Itacaiúnas e
seus afluentes. Os vasos cerâmicos reconstruídos no centro por exemplo, e aqui
usados como fontes históricas, são exemplos palpáveis de documentos de suporte
de informações. Que a partir das questões do historiador sobre eles, se tornam
além de fontes materiais, importantes recursos didáticos facilitadores do
processo de ensino e aprendizagem. Através do estudo desses objetos podemos
conhecer e compreender a estrutura e o funcionamento de sociedades.
Principalmente de sociedades que não possuíam sistema de escrita.
Os
artefatos, então, e seus contextos (meio-ambiente) - num caso como no outro,
coisas físicas - é que servem de suporte de informação que eu vou recuperar,
reorganizar e interpretar para, através dessa informação, chegar ao
entendimento dos sistemas socioculturais. [...] Só faz parte da documentação
arqueológica aquilo que saiu realmente do ciclo da cultura, enquanto coisa
viva: lixo-coisa, lixo-gente. Essa exclusão
é que faz com que essas coisas físicas sejam, para mim, documento. (MENESES,
1980, p.5)
Imagem 8 – 1 -
Pequeno
vasilhame cerâmico; 2 - Borda de vasilhame cerâmico; 3 - Aplique modelado
antropomorfo; 4 - Ponta de flecha
Fonte:
Centro Mulheres de Barro. Educação patrimonial. Nov. 2021. Apresentação de
PowerPoint.
Na imagem 9, temos alguns exemplos de apliques
modelados zoomorfos encontrados nas escavações arqueológicas da Região de
Carajás. Os nomes populares são: 1- Cabeça de Jabuti, 2- Rabo de Tatu, 3-
Perereca e 4- Filhote de Papagaio. Esses apliques que eram utilizados pelos
antepassados como adornos decorativos em peças e vasilhames e que hoje no
Centro Mulheres de Barro são reproduzidas nas peças produzidas pelas artesãs do
Centro.
Imagem 9 - Apliques modelados
Fonte:
Centro Mulheres de Barro. Educação patrimonial. Nov. 2021. Apresentação de
PowerPoint.
Ainda nas decorações das peças encontradas, foram
observadas características especificas dos sítios arqueológicos dessa região
trabalhada. Como é mostrado na imagem a seguir, seguindo a sequência numérica.
1- Casco de Tatu, 2- Ponta de Flecha, 3- Espinha de Peixe e 4- Pele de Cobra.
Imagem 10 - Vestígios Cerâmicos decorados
Fonte:
Centro Mulheres de Barro. Educação patrimonial. Nov. 2021. Apresentação de
PowerPoint.
Imagem 11 - Peças Contemporâneas com
referência arqueológica da região de Carajás
Fonte:
Centro Mulheres de Barro. Educação patrimonial. Nov. 2021. Apresentação de
PowerPoint.
Os objetos trabalhados no Centro Mulheres de Barro,
podem ser de fato, considerados objetos/documentos históricos ricos de
informações. E sua utilização em sala de aula certamente colabora com as
aprendizagens dos estudantes do 6º ano do ensino fundamental. Que por sua vez,
são crianças que terão a chance de compreender que estão realmente inseridos na
história, fazem parte da história, e assim podem perceber a relevância e grande
importância dessa disciplina. Não só como uma matéria da escola, mas também
como conhecimento da vida para a vida.
Todo esse conhecimento almejado, pode ser facilitado
com essa relação proposta entre o centro e a escola. Através da educação
patrimonial que será trabalhado por meio do manual de visitação resultante dessa
pesquisa. Que visa facilitar o ensino de história para crianças de sextos anos
através do patrimônio arqueológico e cultural trabalhado no Centro Mulheres de
Barro.
Apesar de todas as dificuldades de ensinar história
para crianças de sextos anos, e com todas as possibilidades de se favorecer
esse ensino, eis que surge um novo e grande problema em 2020: uma pandemia
causada por um vírus, que pode ser fatal, e inesperadamente afasta todos,
inclusive das escolas, que ficaram fechadas, de tal modo a educação e toda a
comunidade escolar se veem obrigados a se reinventar através de um ensino
remoto.
2.4 – Aulas no período pandêmico - Análise
e reflexão
Segundo o professor e
historiador Leandro Karnal, "Quem já deu aula pra sexto ano
é capaz de fazer qualquer coisa
no planeta terra" (KARNAL, 2019) Exageros à parte, os sextos anos
realmente são desafios para os professores. São alunos e alunas, nem tanto
crianças, nem tanto adolescentes, tem em média 11 a 12 anos. Porém, já trazem
consigo uma bagagem histórica. Não só escolar, mas também das suas vivências
como sujeitos históricos, ainda que não tenham percebido isso.
O início do ano letivo
nos sextos anos é um dos mais importantes e fundamentais para se definir o que
se almeja no ensino de história para os estudantes dessas turmas. Uma
verdadeira missão pedagógica para os docentes. Porém, é o momento mais
impactante para os alunos e alunas. Já que são introduzidos em um novo ciclo de
conhecimentos e com uma dinâmica didática totalmente diferente daquela em que estudaram
e vivenciaram no chamado ensino fundamental menor. Aquela “tia” (professora)
que pegava nas mãos e ficavam juntos um turno inteiro, passa a ser substituída
por um entra e sai de quase uma dezena de professores e professoras que se
revezam com as disciplinas a serem ministradas.
Cada professor/ra com
seu próprio jeito de ser e metodologias próprias. Gerando um impacto que os
estudantes demoram a absorver. E na Escola Carlos Henrique, ainda há a questão
do horário de aula dessas turmas, que funciona no intermediário: 11:00 às
14:45, nada favorável ao ensino e aprendizagens para os estudantes da faixa
etária citada.
Destarte, no início do
ano letivo das turmas de sexto ano, na disciplina de história, os docentes têm
um desafio ainda maior. Além de todas as especificidades citadas, é nesse
início, que se deve trabalhar com os conteúdos básicos de história. Conteúdos
que, são altamente relevantes e necessários para toda a compreensão do ensino
de história. São a base, para as aprendizagens que virão no decorrer dos
estudos de história. Por isso, essas aulas devem ser muito bem pensadas e
ministradas. Através delas, pode-se, ou não despertar o interesse pelo
conhecimento histórico.
Justamente nesse
período, em 17 de março de 2020, as aulas foram abruptamente interrompidas pela
crise de saúde pública gerada pela covid19.
Foi neste dia na Escola
Carlos Henrique, em meio as aulas que o diretor passou de sala em sala
liberando todos os alunos (as) e professores (as), transmitindo um comunicado
da secretaria municipal de educação que suspendia as aulas por um período de 15
dias, e que todos deveriam ir para suas casas e permanecerem nelas durante esse
período. Toda a equipe escolar ficou ao mesmo tempo surpresa e preocupada com a
situação, até então nunca vivida por essa comunidade. Situação que se repetiu
por todo o planeta e que em 2021 continuou da mesma forma.
Era o começo de uma
doença tenebrosa, que assolou o mundo e passou a vitimar fatalmente milhares de
pessoas. O vírus SARS-CoV-2 (síndrome respiratória aguda grave de coronavírus
2), ou COVID-19, como a Organização Mundial da saúde (OMS) denominou. Esse
vírus acabou provocando uma pandemia e trouxe diversas consequências, além das
de saúde pública. No início, a população ficou em pânico, a doença começou a se
espalhar rapidamente e causava um quadro de infecção respiratória, que
dependendo da pessoa, leva a morte. Esse vírus se espalha rapidamente através
de gotículas expelidas pela boca. Um meio de transmissão muito fácil de se
propagar.
Os governantes, agências
e organizações de saúde do mundo inteiro, se viram obrigados a tomar algumas
medidas radicais de enfrentamento do vírus para conter a sua propagação. Entre
as medidas, temos o distanciamento e o isolamento social.
Essa
medida muito importante para o controle da propagação da doença passou a ser
incompatível com o dia a dia escolar. Visto que existe enorme dificuldade de
conter a proximidade entre pessoas que circulam no mesmo ambiente escolar, além
da característica estrutural das salas, muitas vezes superlotadas, que
proporcionam as aglomerações, tornando assim impossível a realização de aulas
presenciais. (MÉDICI; TATTO; LEAO, 2020, p. 137).
Após algumas semanas, seguindo os protocolos e
decisões tomadas por outros países e por outros municípios, a SEMED –
Parauapebas decidiu também aderir ao ensino a distância, como solução
temporária para suprir as necessidades educacionais de ensino na rede
municipal. As chamadas “aulas remotas”, passaram então a ser organizadas.
Iniciando pela adaptação dos planos de ensino para a nova realidade e em
seguida organizando a questão dos meios tecnológicos e as metodologias que
poderiam ser mais bem aplicadas. Porém, apesar das aulas serem remotas, a
orientação era como se fossem presenciais.
Inicialmente, foi pensado o ensino remoto através de
equipamentos tecnológicos como: computador, notebook, tabletes e celulares. E
ferramentas tecnológicas, por meio de aplicativos como o whatsapp.
Infelizmente, o acesso às aulas remotas não é uma
realidade para a grande maioria dos alunos que se encontram na classe social
menos favorecida economicamente. Mas, acreditavam, equivocadamente, que a
maioria dos alunos possuíam ao menos um aparelho celular. Infelizmente, logo
percebeu-se que a maioria não possuía nenhum equipamento tecnológico. E os que
possuíam telefone celular, ou eram aparelhos sem capacidade de memória
necessária para as aulas, ou não tinham pacotes de internet com quantidade de
dados suficientes para acompanhar as aulas remotas por esse meio.
Por outro lado, os professores e professoras, também
não estavam preparados para esse momento, nem estavam preparados para atuarem a
distância, por ser uma realidade totalmente diferente e nova para a maioria,
nem como usuário das tecnologias digitais para esse fim. Iniciou-se então um
caos educacional. A secretaria de educação, gestores, docentes, estudantes e
pais (que acabaram sendo inseridos no processo de ensino dos filhos e filhas)
ficaram tentando reestabelecer condições mínimas para o desenvolvimento do
processo de ensino e aprendizagem. Logo foi pensado em diversificar as
ferramentas tecnológicas:
O avanço
das tecnologias digitais de informação possibilitou a criação de ferramentas
que podem ser utilizadas pelos professores em sala de aula, o que permite maior
disponibilidade de informação e recursos para o educando, tornando o processo
educativo mais dinâmico, eficiente e inovador. O uso das ferramentas
tecnológicas na educação deve ser visto sob a ótica de uma nova metodologia de
ensino, possibilitando a interação digital dos educandos com os conteúdos, isto
é, o aluno passa a interagir com diversas ferramentas que o possibilitam a
utilizar os seus esquemas mentais a partir do uso racional e mediado da
informação. (CORDEIRO; 2020, p. 04).
Entre as primeiras mudanças, houve a mudança nos
horários. Para a disciplina de história, foi selecionado um dia da semana,
junto com outra disciplina. Essa mudança foi feita para que os alunos tivessem
um tempo maior para responder atividades propostas e pudessem utilizar os
aparelhos celulares dos seus responsáveis. Ainda, muitos discentes de turmas
diferentes, compartilham um mesmo aparelho na mesma residência.
Outra mudança foi a tentativa de utilizar a plataforma
“google classroom”, mas, a princípio, não houve nenhum tipo de instrução sobre
o uso dessa ferramenta. Nem para os docentes e nem para os estudantes. Além da
complexidade do uso dessa plataforma para leigos, há também a questão do espaço
insuficiente nos equipamentos e sinal de internet que em muitos casos é ruim.
Outra tentativa em vão, foi a ideia de usar ferramentas como o “meet” e “zoom”
para as aulas síncronas. Houve uma participação mínima ou até mesmo nula de
alunos durante a utilização.
Assim como em muitas escolas, na Escola Carlos
Henrique a pandemia acabou por prejudicar em muito as aprendizagens mínimas
necessárias. Por um lado, a escola invadiu as casas dos docentes e por outro,
os docentes invadiram as casas dos estudantes.
Com a turma foco dessa pesquisa, foi observado pelos
gestores e docentes da escola, que a maioria não possuía sequer um aparelho
celular. E dessa turma nenhum aluno possuía computador ou notebook (equipamentos
mais apropriados que os celulares), ainda, que muitos utilizavam os celulares
dos pais ou responsáveis, somente quando eles chegavam do trabalho (diversos
horários diferentes, inclusive madrugada), e/ou ainda, compartilhavam o
equipamento com outros irmãos e irmãs de anos escolares diferentes.
Um outro problema com o uso desses poucos aparelhos
celulares e ainda compartilhados, foi a questão da memória do equipamento
insuficiente. Na maioria dos casos necessária para tantas atividades das várias
disciplinas. Também, o sinal de internet, que é determinante para o
compartilhamento dos materiais e informações. Em quase totalidade, os estudantes
possuíam apenas pacotes de dados móveis, os quais não suprimem a necessidade
suficiente para as aulas remotas.
Em meio a todos esses problemas, os professores e
professoras ainda tentaram se reinventar. Produzindo diversos tipos de vídeos
aula sobre os conteúdos, postando links para sites apropriados ao estudo,
material em diversos formatos digitais, podcast e até mesmo explicações em
texto no aplicativo de mensagens instantâneas, whatsapp, sobre os temas trabalhados. Porém, nada resolveu o
problema.
A
criatividade dos professores brasileiros em se adaptar à nova realidade é
indescritível no que se trata da criação de recursos midiáticos: criação de
vídeo aulas para que os alunos possam acessar de forma assíncrona além das
aulas através de videoconferência para a execução de atividades síncronas como
em sala de aula. Uma revolução educacional sobre o quanto a tecnologia tem se
mostrado eficiente e o quanto as pessoas precisam estar aptas a esse avanço
tecnológico. (CORDEIRO; 2020, p.06).
Apesar da criatividade e de novos recursos
tecnológicos que surgiram nesse período, oriundos das grandes empresas de
tecnologias, a exclusão digital foi gritante. E a alternativa pedagógica mais
viável e próxima a realidade dos estudantes da escola pública Carlos Henrique,
foi a utilização de apostilas que são geradas periodicamente. Esse material
continha conteúdos de todas as disciplinas e atividades. Os estudantes podiam
fazer a retirada na escola, de forma segura e seguindo todos os protocolos de
segurança para evitar o contágio da covid. Apesar de não ser o ideal, essa
medida tornou possível a participação remota nas aulas de todos os estudantes
da escola. Já que a maioria mora próximo a escola e não tem dificuldade em
acessá-la. Já os estudantes que moram em outros bairros e vinham nas aulas
regulares de ônibus escolar, precisavam comparecer na escola apenas duas vezes
por bimestre. Uma para retirada da apostila e outra para a devolução.
Dentro de todo esse contexto, que se arrastou por 2021
(apesar da chegada das vacinas o ritmo é lento e sem previsão de totalização),
assim surgem outros questionamentos: como trabalhar de forma significativa os
conteúdos básicos de história com alunos de sextos anos? Como fazer com que
essas crianças se sintam atraídas e curiosas pelo conhecimento histórico? O que
os docentes podem fazer para sanar os déficits de aprendizagens? Perguntas que
essa pesquisa busca pensar por meio do uso da educação patrimonial. Ainda de
forma remota, visa proporcionar reflexões e criar possibilidades de
aprendizagens significativas em história. Principalmente ao que concerne aos
conteúdos básicos que devem ser trabalhados nos sextos anos.
De tal modo, a realidade do fazer pedagógico com o
sexto ano A, foi realizada com 16 estudantes interagindo através do aplicativo
de mensagens whatsapp e parte desses também pela plataforma Google ClassRoom, e
o restante dos alunos através de materiais impressos retirados na própria
escola.
Estes são desafios que na atual conjuntura, precisam
ser pensados em grupo, o que demanda esforços dos docentes para superar as
problemáticas advindas da pandemia, assim como demandam a criatividade para
encontrar novos caminhos e estratégias favoráveis ao ensino. Além disto, nesse
período pandêmico é fundamental a participação das famílias, pais e/ou
responsáveis que precisam acompanhar e apoiar os estudos dos discentes, já que
os mesmos estão em casa. Também, é fundamental o apoio do governo, dos
departamentos de educação e gestores escolares. Que devem contribuir com as
políticas públicas favoráveis ao processo de ensino e aprendizagens, bem como,
o fornecimento de equipamento e subsídios necessários para o uso adequado dos
equipamentos. Ainda, devemos pensar na valorização dos profissionais de
educação. Só assim, podemos enfrentar essa crise e aproveitarmos as
aprendizagens advindas do período.
No próximo e último capítulo, iremos percorrer pela
história local de Carajás desde a arqueologia até a recente e atual exploração
mineral da região, curiosidades e consequências. Com esse percurso histórico,
visamos fomentar as visitações ao Centro Mulheres de Barro como local de
referência dessa história e subsidiar o uso do produto final que é o manual de
visitação ao referido centro. Dessa forma, entende-se que para uma utilização
mais dinamizada do produto é necessário conhecer um pouco mais dessa história
que se reflete através dos objetos reproduzidos no centro.
Região
dos Carajás, povoamento e reflexos oriundos da exploração mineral
3.1- Uma história do que hoje é a Serra dos
Carajás, surge Parauapebas
Nessa parte do estudo
buscamos trabalhar com elementos introdutórios para a compreensão da história e
do entorno daquela região compreendida como Carajás que é a área com a qual o
Centro Mulheres de Barro trabalha. São reflexões necessárias para auxiliar o
professor no uso do Manual que estamos desenvolvendo, esses elementos devem
compor a aula de preparação para a turma que irá visitar o Centro. Trabalhados
estes conteúdos o uso do manual de visitação se tornará muito mais inteligível.
A escrita da história do
Brasil, iniciada com os auspícios da monarquia portuguesa, esteve direcionada
para uma visão de Brasil visto de fora para dentro. Já na República e nos
governos autoritários-militares, a visão sobre o Brasil passou a ser forjada
por uma ideia centralizada e pautada na identidade nacional. Sem levar em conta
uma série de especificidades locais:
A historiografia brasileira está
impregnada por narrativas que discursam sobre a nação, a pátria, a sociedade, o
Estado brasileiro. Esta afirmação sublinha o lugar que o recorte temático
“nacional” assumiu entre os historiadores brasileiros. Os grandes textos, os
clássicos da historiografia, aqueles que tomaram lugar no panteão consagrado
pelo pensamento político e social, lidos como referências obrigatórias nas
nossas universidades, escritos pelos que se tornaram nossos mestres
historiadores, remetem-nos, inequivocamente, à uma História do Brasil. (REZNIK,
2016, p.1)
De fato, Reznik nos
adverte sobre os riscos de direcionarmos para uma narrativa histórica ligada a
um recorte nacional. Devemos também considerar as especificidades do local
dentro da perspectiva da multiculturalidade, buscando dialogar com as histórias
especificas de cada lugar.
A
partir do século XIX, na região de Carajás, registra-se a presença de invasores
e inicia-se uma disputa pelos castanhais nativos da região, entre os nativos
Xikrins e migrantes nordestinos. Que se acentuou a partir da década de 1930 com
a forte seca do sertão nordestino. Esses migrantes vieram para explorar o alto
Itacaiúnas, lugar até então dominado pelos Xikrins. Ocasionando diversos
conflitos que só foram atenuados com a criação do SPI (Serviço de Proteção ao
Índio) em 1952. Entre as décadas de 1970 e 1980 a população de migrantes na
região disparou devido a exploração do minério da Serra de Carajás e do ouro de
Serra Pelada.
Essas
migrações ocorridas no sul e sudeste do Pará, tanto às margens dos rios que
cortam a região, como também às margens das estradas que abriram cortando de
ponta a ponta o estado, aconteceram de forma desordenada, transformando as
famílias de migrantes em posseiros e refletindo em uma ocupação desordenada que
carecia de uma reforma agrária. Reforma essa, idealizada por Benedito Monteiro,
Secretário de Estado de Obras, Terras e Viação (1960-1964) e militante do PCB
(partido Comunista Brasileiro), que acabou tendo o seu mandato cassado por
acusação de comunismo. Já em 1966 foram criados pelo governo federal o BASA
(Banco da Amazônia S/A) e a SUDAM (Superintendência do Desenvolvimento da
Amazônia) com objetivo de incentivar a ocupação da Amazônia: “Consolidar a
ocupação da Amazônia (...), representa outro objetivo fundamental do Governo,
possibilitando, destarte, a crescente integração daquela vasta área às demais
regiões do País” (MÉDICI, 1970, p. 46). Porém, a maioria desses incentivos
foram parar nas mãos de latifundiários e empresas de agronegócios, expandindo
áreas de desmatamento e ocasionando tensões e conflitos no campo:
Visando diminuir as tensões sociais
no campo nas regiões Sul, Sudeste e, sobretudo, no Nordeste, o Governo Federal
resolveu promover a migração de milhares de camponeses para a Amazônia,
oferecendo-lhes lotes de 100 hectares, por família, de terras situadas nas
margens dos 2.000 km de extensão da Transamazônica5. Sob o lema de Terra sem Homem para Homens sem Terra,
a meta inicial era assentar 100 mil famílias de colonos entre 1971 e 1974 em
lotes de 100 hectares cada ao longo da rodovia e um total de 500 mil famílias
até 1980. Os projetos de colonização foram paralisados após assumir a
Presidência da República o general Ernesto Geisel (1974-1979), sem nunca ter
alcançado as metas previstas pelo Governo Federal, nem tampouco as expectativas
das famílias que abandonaram suas terras em outros estados pelas promessas do
governo de terra e lucros na Amazônia. Entretanto, esse curto período de tempo
favoreceu, sem qualquer ajuda oficial, a migração de milhares de camponeses e
trabalhadores para essa parte do território nacional. Parte dessas famílias
acabaram ocupando, como posseiros, inúmeros hectares de terra, especialmente no
sul e no sudeste do Pará. (PETIT; PEREIRA; PESSÔA, 2014, p. 340).
Havia um imenso disparate
desproporcional, quase todas as terras paraenses foram entregues nas mãos de
poucos proprietários, enquanto a grande maioria ficou com poucas terras, quase
nada, ou exatamente, nada. Latifúndios absurdos que por vezes acabavam sendo
ocupados por posseiros, gerando conflitos e diversas mortes, as quais ainda se
reproduzem hoje por conta de questões agrárias.
Desde o fim da década de
1960, com a abertura de diversas rodovias cortando o estado, como: PA-70,
Transamazônica e PA-150 que interligaram o sul e sudeste do Pará com o restante
do país, houve uma série de mudanças no modo de viver e trabalhar na região.
Além das margens dos rios, agora, os migrantes ocupavam também as margens das
rodovias, como caso da ocupação de Parauapebas.
Mas os migrantes pobres
que chegavam atraídos pela propaganda do governo federal, em busca de terras e
uma vida melhor, acabavam se juntando aos desfavorecidos economicamente que já
estavam por aqui. Engrossando os movimentos de luta por uma distribuição justa
das terras, em oposição aos latifundiários, madeireiros e mineradoras.
Esses movimentos foram
duramente combatidos por pistoleiros e pelo aparato do estado. Sucessivos
conflitos que se expandem por décadas no Pará e já tomaram repercussões até
internacionais. Conforme ressaltam Petit, Pereira e Pessôa, “Entre 1971 a 2004,
segundo dados da CPT, 774 trabalhadores rurais foram assassinados em razão das
disputas pela terra no Pará” (PETIT; PEREIRA; PESSÔA, 2014, p. 350). Muitos
assassinados por pistoleiros e outros pela polícia militar, e o pior, a maioria
dos casos terminou sem condenação. Entretanto, não havia só passividade do lado
dos posseiros. Em alguns casos a violência foi revidada com violência também.
Devemos destacar também,
nesse processo desordenado de ocupação dessa região do estado do Pará, a
participação da igreja católica junto aos movimentos de luta pela reforma
agrária. Como por exemplo a CPT (Comissão Pastoral da Terra), criada em 1975
para discutir as questões de conflitos por terras, desmatamentos e diversos
tipos de violência que aconteciam na floresta agora ocupada. O que gerou
insatisfação por parte dos grandes proprietários de terra que denominaram tal
movimento como inimigo, facção subversiva da igreja católica. Enfraquecendo
somente nos anos finais de 1980 e início dos anos 1990 com a insurreição do MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), que passou a ter um papel
crucial em favor do campesinato.
Em paralelo a essas
conjunturas, em 1967 o geólogo Breno Augusto dos Santos, descobriu as jazidas
de ferro em Carajás, com estimativa de mais de 18 bilhões de toneladas, além de
outras jazidas como cobre e manganês. A Serra dos Carajás atraiu a atenção dos
governantes e diversos setores interessados na exploração desses minérios, e em
pouco tempo ficou mundialmente conhecida. E já em meados dos anos 1970, tornou-se
cobiça do regime militar que assolava o país. Em 1980, foi criado o PGC
(Programa Grande Carajás), programa esse de intervenção econômica na Amazônia.
E em 1995, as exportações de minério oriundas da Serra dos Carajás, já
representavam a maioria das exportações do Pará, já com faturamentos
exorbitantes e assumindo a posição de uma das maiores economias do estado.
Porém, segundo o INESC (Instituto de Estudos Socioeconômicos), na matéria
“Incentivos fiscais para o desenvolvimento da Amazônia ou para o lucro das
empresas? ” (CARDOSO, 2014, p. 1), a Vale do Rio Doce teve um dos maiores
desvios de riquezas e impostos que já se viu. Foi beneficiada através da
Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM pelos incentivos
fiscais de com isenção de 75% do Imposto de Renda de Pessoa Jurídica –IRPJ.
Consequentemente a todos
esses acontecimentos citados, os problemas com as migrações aumentaram. Além
dos migrantes que já estavam aqui, concernentes dos outros ciclos de migração,
como as habitações surgidas nas margens dos rios e posteriormente nas margens
das estradas que foram abertas, passaram a ter novos habitantes para preencher
as vagas principalmente das construções de infraestrutura que o grande projeto
demandava. Eram novas oportunidades de emprego que surgiam na Amazônia, que
atraiam novos grupos de migrantes e lotavam o então povoado pertencente ao
município de Marabá, chamado de Parauapebas. Que foi chamada por muito tempo de
“cidade-acampamento”, devido aos inúmeros acampamentos montados pelas empresas
envolvidas na implantação do projeto.
Posteriormente surgiram,
dois núcleos habitacionais, o de Parauapebas e o de Carajás, que fica no alto
da serra. Essa cidade nasceu à margem do Projeto Grande Carajás, excluída do
enraizamento desse grande capital advindo da exploração de suas riquezas
minerais (ROCHA, 2018).
A ocupação de Parauapebas
multiplicava-se a cada semana, e os acampamentos montados eram somente para os
funcionários das empresas. Gerando uma situação conflituosa entre os não
funcionários das empresas e os proprietários das fazendas que dominavam o
território que acabou por ser ocupado desordenadamente e posteriormente loteado
e demarcado pelo INCRA (Instituto de Colonização e Reforma Agrária).
A primeira ocupação desordenada desse ciclo de migração,
foi na área denominada: Vilarejo Rio Verde, hoje, bairro Rio Verde. Nesse mesmo
lugar, fica localizado o “Centro Mulheres de Barro”. A demarcação feita pelo
INCRA nessa área, não impediu as tensões entre os posseiros, grileiros e seus
pistoleiros. Muitas construções precárias e improvisadas surgiam rapidamente e
por muitas vezes eram reconstruídas nem sempre no mesmo lugar. “[...] com
recursos tecnológicos parcos e simples, como a foice, o facão, a enxada e a
energia físico-muscular e muito provavelmente também por meio de mutirões”
(ROCHA, 2018, p.37), transparecendo um sentimento comum de solidariedade entre
os desfavorecidos.
3.2- O minério de ferro que segmenta o
espaço
A História de
Parauapebas, em alguns aspectos, lembra a história de outras cidades que
surgiram devido a exploração de minérios, em época dos grandes projetos na
Amazônia, implementados pela ditadura brasileira. O município de Parauapebas
está situado no Sudeste Paraense, na região norte do Brasil. Onde está
localizada a maior mina de minério a céu aberto do mundo, explorada 24 horas
ininterruptamente pela empresa Vale. E está distante 719 quilômetros da capital
do estado do Pará, Belém. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), a sua área territorial é de 6.886 km² (2020). A sua população estimada em 2020 é
de 213.576 habitantes. O PIB per capita de 2020 foi de R$78.841,15 e segundo o
próprio IBGE, em 2011
ultrapassou a casa dos 120.000 reais.
O nome Parauapebas vem do dialeto indígena
tupi-guarani, que significa “rio de águas rasas”, fazendo referência ao rio que
corta a cidade e que batizou a cidade que nasceu de um conturbado processo de
ocupação. Atrelado a intenção do governo ditatorial em ocupar a Amazônia,
através de políticas de desenvolvimento articuladas com interesses privados.
Como afirma, Rodrigo Verde:
Além do interesse das indústrias mineradoras
na região amazônica havia uma convergência das políticas nacionais de
colonização da Amazônia Legal, considerada, pelo regime militar instaurado em
1964, como um vazio demográfico a ser ocupado. Os grandes projetos de
desenvolvimento regional para a Amazônia apontavam para a necessidade de
orientar os investimentos e as associações empresariais capazes de promover o
progresso socioeconômico. (VERDE, 2009, p. 02)
Combinando com a
descoberta da gigantesca reserva de minério encontrada na região, “Em 1970, o
governo federal criou a empresa Amazônia Mineração A/S (AMZA), formada a partir
da associação entre a Companhia Vale do Rio Doce (CRVD), hoje Vale, e a United
States Stell – que teria descoberto as minas” (LEITE, 2020, p. 52).
Posteriormente, a CVRD assumiu sozinha a exploração.
Em julho de 1995 o governo federal anunciou
seu interesse em vender algumas das empresas estatais. Com a mesma justificativa
dos militares quando da criação do Projeto Grande Carajás de que as
privatizações iriam diminuir a dívida pública, o governo Fernando Henrique
Cardoso implantou o Plano Nacional de Desestatização com intenção de vender,
entre outras empresas públicas, a CVRD. Ela foi privatizada no dia 06 de maio
de 1997 [...]. O vencedor do leilão da CVRD foi o Consórcio Brasil. Liderado
pela CSN. [...]. Após a privatização, a presidência passou a ser exercida por
um conselho de sócios controladores composto por nove integrantes. (COELHO,
2015, p. 37-38)
Valores que infelizmente não se refletem para
os funcionários, muito menos para os habitantes da crescente cidade. Que, desde
as primeiras ondas migratórias, já se observava imensas diferenças sociais e
econômicas, que foram ainda mais exacerbadas com o crescimento desordenado e
abrupto. Para se ter uma ideia da dimensão, “Parauapebas começou como um
povoamento – pertencente ao município de Marabá - para dar suporte à
implantação do Programa Grande Carajás (PGC), crescendo de três casas para 15
mil habitantes entre os anos de 1980 e 1985” (BUNKER, 2003, p. 14).
A
primeira disposição urbana da cidade já externava a segregação. Consistia em
três espaços, um núcleo urbano, na Serra dos Carajás, comparado a cidades consideradas
de primeiro mundo e destinado aos funcionários da Vale que trabalhavam na
extração dos minérios. Mais um outro núcleo de trabalhadores e comércios na
parte baixa da serra, próximo a portaria que separa a serra. Esse por sua vez
destinado a alguns trabalhadores à serviço da Vale e aos comerciantes que
recebiam a doação de lote mediante a possibilidade econômica de montar um
comércio que ajudasse a suprir as demandas da Vale. Esse espaço hoje em dia é o
bairro Cidade Nova (ver Imagem 12 – bairro 12). E por fim, o povoamento Rio
Verde, hoje bairro Rio Verde (ver Imagem 12 – bairro 20) o lugar dos excluídos,
quase sempre atraídos pela propaganda governamental. “A
origem do povoamento está ligada ao nome de uma fazenda que existia no local e
que foi ocupada por migrantes, que conseguiram posteriormente a doação das
terras pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA)”
(SOUZA, 2011, p. 240). Esses últimos, quando conseguiam emprego, serviam apenas
de mão-de-obra barata.
Imagem 12 - Imagem da atual divisão dos
bairros da cidade de Parauapebas
Fonte:
Plano diretor de Parauapebas, 2021 – SEPLAN
Conforme Avone
Rocha (2018) que relata, a segregação na cidade de Parauapebas pode ser
destacada em dois exemplos:
[...]
enquanto ‘os grandes’, com todos os incentivos possíveis provenientes do Poder
Central Federal ditatorial, se aproveitavam e cercavam as terras para a
implantação de algum empreendimento econômico, aqueles despossuídos que aqui
chegavam se viam apenas na condição de se instalarem precária e
compulsoriamente em terras marginais [...] Já o segundo exemplo, que se
tornaria notório e à vista da época, adviria dos flagrantes e escandalosos
contrastes entre os núcleos habitacionais da CVRD (o de Carajás e o de
Parauapebas) e o vilarejo Rio Verde. (ROCHA, 2018, p. 62-63)
Diferenças de infraestrutura gritantes, por
exemplo: no núcleo urbano da Serra dos Carajás já havia piscina olímpica
aquecida, hospital de referência, cinema, igreja, campo de futebol, ruas
asfaltadas, restaurantes, escola, zoológico e até um aeroporto. Uma estrutura
moderna e desejada até hoje por outras cidades. As notícias dessas construções
moderníssimas acabavam chegando aos ouvidos dos moradores do vilarejo Rio
Verde. Segregados por uma portaria vigiada 24 horas, e que separa fisicamente a
Serra dos Carajás dos habitantes da periférica cidade que a rodeia.
Até hoje, essa portaria continua segregando
a sociedade parauapebense, muitos habitantes e visitantes da cidade dizem: “lá
em cima é o primeiro mundo e aqui em baixo o terceiro”. As obras do Núcleo
foram iniciadas em 1984 e, em 1986, chegaram os primeiros moradores. Toda a
estrutura foi construída para receber os empregados que vieram trabalhar na
implantação do projeto Carajás. O próprio site da Vale fala que: “Localizado na
Floresta Nacional de Carajás, o Núcleo Urbano de Carajás fica a 17 km das minas
e a 25 km de Parauapebas. Com uma área de aproximadamente 306 hectares
totalmente cercada, hoje, seis mil habitantes ocupam os 1.346 imóveis
residenciais e 70 imóveis comerciais" (VALE, 2018). Enquanto que, na parte
baixa da Serra, moram cerca de 207 mil habitantes. E para a entrada de não
moradores na serra, é necessária uma identificação, foto, cadastro e
justificativa. E então, pode ser concedida, ou não, tal autorização de entrada.
Com restrições de locais a serem visitados.
Apesar de todo o poder do capital e do
autoritarismo vigente, ocorreram intenções de amenizar a situação explícita das
diferenças sociais existentes, não só em Parauapebas, como em todo o processo
de ocupação da Amazônia através da implantação de grandes projetos. Esforços
políticos e institucionais foram elaborados para tentar amenizar os impactos
sociais e ambientais na Região de Carajás. Segundo o professor, geógrafo Aziz
Nacib (2004),
[…] esse esforço político se iniciou
com a exigência do Banco Mundial para com a estatal mineradora de que ela
deveria contar com o aval da comunidade cientifica brasileira, tanto no que
dizia respeito a questões de meio ambiente, quanto a demandas relacionadas ao
social (AB’SABER, 2004, p. 263).
Sob pena de não conseguir mais empréstimos
junto a instituição bancária. Foi então criado o GEAMAM (Grupo de Estudos e
Assessoramento Sobre o Meio Ambiente), do qual o próprio Aziz fazia parte, com
fins de evitar o segregacionismo social e cultural entre o Núcleo Urbano da Serra
dos Carajás e os habitantes do seu entorno.
Com o intuito de amenizar possíveis tensões e
conflitos, o GEAMAM propôs ao Banco Mundial a construção do então Núcleo Urbano
de Parauapebas, o atual bairro chamado Cidade Nova, considerado o Centro da
cidade atual. “O Banco Mundial entendeu rapidamente a validade do projeto de
uma cidade relais (o Núcleo de Parauapebas) para desafogo da pressão
social sobre os núcleos residenciais em instalação nos ‘altos’ da Serra”.
(AB’SABER, 2004, p. 265). Mas todo esse esforço do grupo de estudos e
assessoramento, não amenizava as imensas desigualdades sociais existentes entre
os núcleos e o povoado, principalmente pela questão dos incentivos que eram
praticamente nulos para os trabalhadores que viviam às margens do Projeto Ferro
Carajás.
Outro responsável em diminuir as grotescas diferenças
citadas, foi o administrador de obras de Marabá, José Francisco de Brito, o
Chico Brito. Que em 1983 foi designado pelo próprio presidente da república,
General João Batista Figueiredo (que inclusive esteve presente na inauguração
do Núcleo Urbano de Carajás, reforçando a propaganda político econômica do
regime militar), “[...] como administrador regional de Parauapebas, em conjunto
com o prefeito de Marabá, permanecendo na função até 1986” (LEITE, 2020, p.
54). Ainda assim, as insatisfações dos desfavorecidos só cresciam
indiscriminadamente. O administrador Chico Brito, ainda conseguiu fazer algumas
implantações em Parauapebas, como:
[...]
a implantação dos cursos de 1º e 2º graus na escola General Euclydes
Figueiredo, prevista pela CVRD para 1986, a implantação do primeiro posto dos
correios, convênio com a Telepará, instalou sistema de telefonia, doação da
área para construção do quartel da Polícia Militar, a construção – com recursos
estaduais - das escolas Eduardo Angelim e Carlos Drummond de Andrade,
implantação do sistema de tratamento de água e a coleta de Lixo urbano (com
carroças). (LEITE, 2020, p.56)
Todas essas benfeitorias não conseguiam suprir as
necessidades da população que crescia demasiadamente. E para piorar, em 27 de
junho de 1984, houve uma revolta dos garimpeiros da Serra Pelada (local onde
acontecia uma grande extração de ouro e fica próximo a Parauapebas, lugar
frequentado pelos garimpeiros). Insatisfeitos com o apoio negado pela CVRD para
ajudar a resolver o problema causado por uma enchente na mina de extração de
ouro, o que impossibilitava o trabalho deles, invadiram então, o centro
residencial de Parauapebas e destruíram alguns prédios públicos. Esse fato não
resultou em apoio nem da mineradora e nem da prefeitura de Marabá. Mas, esse
episódio acabou culminando em dois processos; no início de um movimento pela
emancipação de Parauapebas, e na intermediação do GEAMAM entre a CVRD e a
comunidade do Rio Verde na tentativa de criar ações favoráveis a diminuição das
tensões remanescentes do segregacionismo imposto pela estatal.
Mesmo com toda a resistência dos tecnocratas da CVRD,
alinhados a política autoritária vigente no país, que dificultavam essa
interação sociocultural, o GEAMAM conseguiu criar uma lista de sugestões com
benfeitorias para a população que habitava os entornos da Serra dos Carajás.
Essa longa lista, está presente no livro “A Margem do Projeto Ferro Carajás” de
Avone J. A. Rocha (2018). Essas sugestões foram aceitas com muitas dificuldades
e aos poucos pelos diretores da Companhia. Ações que amenizavam, mas não
resolviam os inúmeros problemas provenientes da implantação do projeto.
Quanto a emancipação, se concretizou em 1988 pela Lei
Estadual nº 5.443/88 que elevou Parauapebas ao status de município paraense. No
ano seguinte, Faisal Salmen foi eleito o primeiro prefeito de Parauapebas
(1989-1992).
A emancipação de Parauapebas trouxe o benefício da
arrecadação municipal. Segundo a revista Mineração e Sustentabilidade
(06/01/2021), a prefeitura municipal recebeu só de Compensação Financeira pela Exploração Mineral – CFEM,
920 milhões. O que continua
ainda atraindo migrantes de todo o país, em busca de empregos e oportunidades
de melhores condições de vida, o que nem sempre acontece. O que se constatou
desde a emancipação, é que as mazelas sociais e a exclusão continuaram existindo.
E esse esperado progresso econômico para toda a cidade, é apenas um “[…]
facilitador para a instalação de projetos das mineradoras. O discurso de
criação de empregos e da quantia de investimentos desmobiliza a população e
dificulta a atuação de grupos de oposição” (COELHO, 2015, p. 65).
Esse
desenvolvimento capital não reflete de forma igualitária na cidade e muito
menos na vida de seus habitantes. Esse assombroso progresso trazido pelos
grandes projetos na Amazônia, alteraram totalmente a região. Como ressalta
Tádzio Peters Coelho:
Tudo
em Carajás é grandioso, principalmente a tragédia humana. [...]. A maior
floresta tropical do mundo já não existe no sudeste paraense devido ao
Desmatamento contínuo promovido pelo agronegócio, pelas mineradoras e pelas
madeireiras. A mais rica província mineral do planeta testemunha a depleção da
rica hematita, fonte da acumulação privada e da pobreza da maioria. O
assassinato sistemático das lideranças populares tenta quebrar as resistências
ao projeto neoextrativista. Há tanta riqueza no subsolo e tanta pobreza sobre
ele. (COELHO, 2015, p. 151-152)
“Assim como não existem impactos sociais locais
positivos, obviamente também não existem impactos ambientais positivos causados
pela mineração. ” (COELHO, 2015, p. 119).
Precisamos considerar que o minério é uma fonte natural esgotável. Ou seja, um
dia tudo isso vai acabar (as previsões sempre diminuem a estimativa inicial), e
o que restará de espólio de toda essa imensa exploração da região aos
habitantes que se enraizaram pelos entornos do grande projeto? E todo o
imensurável dano ambiental causado pela destruição da floresta, como será
compensado? Esses são apenas alguns questionamentos que até então, continuam
sem resposta e deixam uma imensa preocupação na população local.
Depois desse apanhado reflexivo sobre a história
recente de Parauapebas, destacamos o local onde está inserida a Escola
Municipal Carlos Henrique, o Bairro da Paz (ver
imagem 13). Bairro considerado antigo na cidade e vizinho do primeiro bairro que
surgiu em Parauapebas, o bairro Rio Verde, já descrito acima.
Estabelecer um recorte, enfim, é definir um ‘território
historiográfico’ – um território a partir do qual o historiador, como ator
sintagmático, viabiliza um determinado programa. É a partir desta operação –
seja ela orientada pelo grande recorte no espaço físico, pelo recorte regional,
pelo recorte da série documental, ou simplesmente pela análise de uma única
fonte – que o historiador deixa as suas marcas e as de sua própria sociedade,
redefinindo de maneira sempre provisória este vasto e indeterminado espaço que
é a própria História. (BARROS, 2005, p.127)
A partir desse recorte
geográfico, a pesquisa busca perceber as relações da história do bairro da Paz
com a cidade, e os elos entre a escola e consequentemente os alunos com a
comunidade em que estão inseridos.
Imagem 13 - Mapa do bairro Da Paz,
Parauapebas - PA
Fonte:
Google Maps, 2020.
Imagem 14 - Localização da EMEF Carlos
Henrique e a proximidade com o Mercado Municipal onde fica o Centro Mulheres de
Barro
Fonte:
Google Maps, 2021.
Essa aproximação da
história com a vida, é essencial no processo cognitivo de aprendizagem e
compreensão histórica. Partindo de uma história da região e da cidade, a nossa
reflexão chega até o bairro Da Paz, que também surgiu às margens do Projeto
Ferro Carajás e é vizinho do bairro Rio Verde. Separados pela famigerada Rua do
Meio. Era uma grande zona de prostituição com muitas mulheres, cheia de
“cabarés” (casas de prostituição), muita música, bebidas e violência. O que
acarretou ao bairro Da Paz, por muito tempo, uma má fama. “Não era especificamente um bairro, mas uma zona livre, já que a
prostituição e a venda de bebida alcoólica no garimpo de Serra Pelada eram
proibidas, bem como dentro dos canteiros de obras da Vale do Rio Doce” (PORTAL
PEBINHA DE AÇUCAR, 2013). Era um local muito frequentado por garimpeiros,
“peões” (como eram chamados os trabalhadores subalternos) e viajantes. Sendo um
dos poucos lugares de diversão na cidade. Ainda hoje, a Rua do Meio (hoje Rua
Fortaleza), ainda mantém alguns resquícios dessa época, tanto de alguns lugares
ainda mantidos, como de um retrato de pobreza e exclusão à referência do grande
projeto. Que, por muitas vezes, se reflete em forma de preconceito dentro da Escola
Carlos Henrique, para com alguns alunos advindos de famílias que passaram por
todo esse processo histórico que relatamos.
O bairro da Paz hoje,
geograficamente, está centralizado no meio da cidade. E apesar de alguns
resquícios da sua história mais remota, conta com diversas escolas públicas e
particulares, hotéis, comércios variados, ruas pavimentadas e muito
movimentadas. E comparando a outros bairros novos, existe uma sensação de
segurança maior dos moradores. Se distanciando de estereótipos que outrora
manchavam a sua reputação.
Como resposta à todas essas análises e reflexões
propostas nessa pesquisa, e aspirando contribuir com as necessidades do ensino
atual e tentar suprir os déficits de aprendizagens em história, a pesquisa em
curso tem como proposição a criação de um manual de apoio a visitação ao Centro
Mulheres de Barro, que visa facilitar o ensino e aprendizagem dos conteúdos
iniciais concernentes ao sexto ano, através do patrimônio histórico do ‘Centro
Mulheres de Barro”, que também é resultante do Grande Projeto Ferro Carajás,
que entre suas obrigações, deve a população local uma contrapartida pela
exploração mineral no município.
Uma vez realizada a leitura dessa parte da história
que serve de material introdutório e disponibiliza informações para a
compreensão do Manual, convidamos os leitores/as a apreciarem o produto
didático. No próximo tópico dessa dissertação, trazemos elementos de como
pensamos e elaboramos esse material, assim como indicamos o nosso processo de
organização e de planejamento da sua aplicação
3.3 – Planejamento para o desenvolvimento e
utilização do Produto Didático
Pensando na dinamização da utilização do manual de
visitação ao Centro Mulheres de Barro - Ver em Apêndice A - como um instrumento
didático facilitador das aprendizagens significativas em História, finalizamos
essa dissertação de mestrado em ensino de história com uma proposta, sugestão
de uso do manual e visitação e um plano de aula. Ressaltando que o manual pode
e deve ser usufruído por toda a comunidade parauapebense, apesar da pesquisa
ter elencado uma turma escolar de 6° ano devido a relação dos conteúdos
curriculares que são trabalhados nessas turmas, professores e outros visitantes
também poderão desfrutar desses conhecimentos.
O
manual também foi criado para promover a divulgação do Centro para aqueles que
ainda não conhecem esse espaço de educação patrimonial, toda sua história e
importância, expondo através dele toda a integralidade do Centro. E
consequentemente, estimular e facilitar o acesso e visitação ao Centro Mulheres
de Barro.
Abaixo,
segue uma sugestão de Plano de Aula para docentes da disciplina de História
utilizarem o manual de apoio à visitação, com possibilidades de entrelace entre
o Centro Mulheres de Barro e as aulas de História. Lembrando que o plano é
adaptativo para cada escola e turma, levando sempre em consideração as
especificidades de cada uma. O plano almeja guiar a aula pelo espaço
possibilitando um percurso didático. Utilizando o plano e o manual como um
momento de preparação para uma futura visita ao centro.
SUGESTÃO
DE PLANO DE AULA
Disciplina:
História
Escola:
Professor:
Ano:
6º ano
Quantidade
de aulas:06
Unidade
temática: História: tempo, espaço e formas de registros
Objeto
(s) de conhecimento: Formas de registro da história e da produção do
conhecimento histórico
Habilidades/competências
(BNCC): (EF06HI02)
identificar a gênese da produção do saber histórico e analisar o significado
das fontes que originaram determinadas formas de registro em sociedades e
épocas distintas.
Recursos:
Manual de visitação “A História de Parauapebas Através das Mãos das Mulheres de
Barro”
Procedimentos
Metodológicos: A aula com a visitação pode ser dividida em três etapas:
Etapa
1 (2 aulas) - Apresentação do tema e do objetivo. Para que os alunos saibam da
importância desse conhecimento (pode ser apresentado através de slide ou no
próprio quadro).
1.1-
Levantamento do conhecimento prévio: questionamentos sobre as formas que os
discentes conhecem de se registrar a história, noções do que significam fontes
históricas e suas importâncias, questões básicas sobre arqueologia e se
conhecem o Centro Mulheres de Barro, o que é e o que fazem lá.
1.2-
Após as respostas, acrescentar (se for o caso) ou apresentar os conceitos de
fontes históricas e tipos de fontes, fomentando uma discussão sobre a sua
importância para o conhecimento histórico e explicar o que é educação
patrimonial (Manual, pág. 23 a 27).
1.3-
Ressaltar a importância da arqueologia local relacionando o Centro com a
história da Região de Carajás (Manual, pág. 17 a 22).
1.4-
Convite para a visita ao Centro Mulheres de Barro: (previamente o professor já
deve ter agendado a visita com a administração do Centro e preferencialmente
conhecido o espaço). Informar aos alunos as normas estabelecidas à visita, como
devem se comportar, motivá-los a questionar, refletir, interagir e usufruir da
experiência (mostrar o Manual de visitação).
Etapa
2 (2 aulas) - A visita ao Centro Mulheres de Barro deve ser pautada na história
local e educação patrimonial, como indica o manual de visitação.
2.1-
Proposta de metodologia do dia da visitação passo a passo:
-
Reunir os estudantes em frente ao centro e falar brevemente sobre a história
daquele bairro onde está localizado o Centro;
-
Apresentar a fachada do prédio, a logo e suas significações;
-
Adentrar o Centro, apresentar a funcionária e ressaltar a importância histórica
do local e da educação patrimonial;
-
Acompanhar cada estágio da visita no salão de exposições sempre complementando
as informações e salientando os aspectos históricos abordados. Assim como, a
utilização de cada objeto como fonte histórica.
2.2
– A prática com argila:
-
Destacar a história da relação do ser humano com essa prática e incentivar a
participação dos estudantes em cada fase do processo de criação do objeto
proposto;
-
Orientar os discentes a levarem os objetos criados por eles com cuidado para a
escola, onde serão posteriormente expostos;
Observação:
O docente deve participar ativamente de toda a visita, fomentando as explicações
históricas e instigando a participação ativa dos estudantes e questionamentos.
Etapa
3- Avaliação (2 aulas): Poderá utilizar-se dos objetos de cerâmica criados por
eles, fazendo uma pequena exposição dos mesmos para toda a escola acompanhados
de um pequeno relato de toda a experiência vivida nesta aula.
Os resultados da aplicação desta metodologia
desenvolvem atividades que levam os participantes à reflexão, descoberta e
atitude favorável a respeito da importância e valorização do nosso Patrimônio Cultural.
Relembramos
que o plano de aula pode e deve ser adaptado para as realidades de cada escola
e turma. Assim como personalizado, ampliado ou enriquecido pelos docentes que o
adotarem para ser usado concomitantemente com o Manual de Visitação ao Centro
Mulheres de Barro, ver Apêndice - A. E que ainda podem ser trabalhados diversos
temas ou conteúdos, como por exemplo: O que é história? Para que serve? Qual o
papel do historiador? O que são e quais os tipos de fontes? Questões também
sobre temporalidade e espacialidade, história local e outros mais.
Destarte,
a pesquisa busca esclarecer, refletir, instigar e propõe aulas de história mais
dinamizadas e encantadoras através do desenvolvimento de guia de visitação. Um
instrumento que visa não só aprofundar a temática da educação patrimonial, mas
colocá-la como um recurso proativo em prol de uma aprendizagem significativa em
história. Use, explore e aprimore, o Manual de Visitação ao Centro Mulheres de
Barro.
Considerações
finais
Para uma melhor compreensão da importância
arqueológica da Região dos Carajás e das possibilidades da relação com o ensino
de história através da educação patrimonial, fizemos uma abordagem da história
de Parauapebas desde o que nos conta a arqueologia, passando pelo povoamento
até os reflexos causados pela exploração mineral. Destacando Carajás no mapa da
arqueologia sul-americana e a notabilidade disso para a história. Mostrando uma história bem mais antiga da região do que a das
desordenadas migrações posteriores, tanto dos indígenas pelas margens dos rios,
como a dos migrantes nordestinos em busca de uma vida melhor. Chegando até a
segmentação do espaço, que ainda persiste, devido a exploração de minérios.
Este trabalho é resultante de uma pesquisa sobre o
ensino de história, ensino que gera uma inquietação constante entre nós
professores da área e pesquisadores. Deve-se sempre buscar novas estratégias
para tentar amenizar as dificuldades de aprendizagens principalmente dos
estudantes dos sextos anos, os quais apesar de já estudarem história desde o
primeiro ano, recebem um impacto ao se depararem com a história como disciplina
específica no ensino fundamental maior. A própria grade curricular nos aponta
que devemos trabalhar com estes estudantes “a importância da história”.
Entre as diversas abrangências do estudo de história, percebe-se
que o currículo deve se aproximar da vida dos discentes. Por isso a pesquisa
contribui com a importância do estudo da história da região de Carajás com o
intuito de mostrar que todos nós somos sujeitos
históricos. Nessa interação entre os saberes históricos e a sala de aula, o
ProfHistória tem um papel crucial de formar professores capazes de fazer essa
aproximação e isso fica claro nessa e em outras pesquisas do mestrado profissional.
A questão do currículo é algo que não podemos
engessar, por isso esta pesquisa propõe a produção do conhecimento histórico em
diferentes espaços de memória. A própria Escola Carlos Henrique, palco desse
trabalho, é um exemplo de caminho para o ensino de história dentro dessa
pesquisa. Sua localização e proximidade com o Centro Mulheres de Barro,
referenciado na pesquisa, assim como a própria história do bairro nos
proporcionam um ensinar significativo da história como disciplina. Nessa visão
a pesquisa mostra que há possibilidades de interação entre o currículo, o
projeto político pedagógico escolar e o ensino de história através do
patrimônio cultural local como fonte de aprendizagens qualitativas.
Essa proposta de ensino da história local, história de
Parauapebas, através da educação patrimonial e das fontes trabalhadas no
referido Centro, dialogam com a prática através da proposição final desta
pesquisa e dos resultados que superam as dificuldades de aprendizagens em
história apresentadas inicialmente. Portanto, o patrimônio cultural brasileiro
existente aqui na região dos Carajás é um excelente aporte para o processo de
ensino e aprendizagens em história, é um atrativo chave para despertar o
interesse e o fascínio das crianças de 6º anos pelo ensino de história.
A utilização do patrimônio cultural como fonte para o
ensino de história em Parauapebas rompe com o desinteresse muitas vezes
percebidos das aulas tradicionais, foge das salas frontais e interage
literalmente o discente, o docente, as fontes e o ensino de história.
Vivenciando e impactando positivamente, novas dinâmicas de conhecimento escolar
em história.
Uma melhor compreensão arqueológica da história de
Parauapebas pode facilitar o entendimento de muitas das indagações e dúvidas das
crianças sobre a realidade histórica de alguns conteúdos. E o fato de ouvir,
ver, tocar e sentir, possíveis nas visitações ao Centro Mulheres de Barro,
contribuem imensamente para o processo de conhecimento e reflexão da história
plural de Parauapebas. É um vivenciar de novas possibilidades de um trabalho
educacional sistemático de valorização e apropriação do patrimônio cultural da
cidade que para a maioria dos habitantes, infelizmente, ainda é totalmente
desconhecido.
Esse contato com a história através de vestígios
arqueológicos e réplicas cerâmicas dos objetos encontrados na região, proporcionam
uma prática educacional exitosa. Conforme mostra a contribuição do Manual de
Visitação quando trata da relação entre o ensino de história e educação
patrimonial. A educação patrimonial é um caminho viável para o ensino de
história. Através das fontes históricas encontradas nos sítios arqueológicos da
região e da utilização do Manual proposto aqui e da visitação ao Centro é possível
uma aproximação dos conteúdos com os discentes e a localidade que os rodeiam,
uma estratégia didática proveitosa que supera e vai muito além da simples
utilização dos livros didáticos. Que quase sempre trazem exemplos muito
distantes da realidade da Região dos Carajás.
Outro ponto destacado na pesquisa é a possibilidade de
entrelace do plano de ensino de história municipal com o projeto Mulheres de
Barro. Apesar do currículo ser uma imposição a serviço do poder, este trabalho
analisou os diversos documentos que regem o ensino de história em Parauapebas e
verificou que o projeto Mulheres de Barro pode ser usado como facilitador de
algumas aprendizagens referentes ao 6º ano, como exemplo, a importância de
estudar história e conhecer a cultura local desde a presença dos primeiros
seres humanos que habitaram essa região. O próprio Plano de Ensino para o 6º
ano fornecido pela secretaria de educação local, ressalta a importância do
ensino de história como instrumento de transformação capaz de proporcionar aos estudantes
um olhar reflexivo, crítico e diferenciado.
Como resultante de todas as análises feitas no
decorrer da pesquisa, chegamos ao consentimento de que a visitação ao Centro
Mulheres de Barro contribui efetivamente para o ensino da história de Parauapebas
e abre um leque de possibilidades de se trabalhar também outros conteúdos de
história indispensáveis aos discentes. E que a visitação em si como recurso de
aprendizagens do conhecimento histórico, carece de uma orientação
didática-pedagógica. A qual pode ser suprida com o apoio do produto final dessa
dissertação que é o Manual de Visitação ao Centro Mulheres de Barro,
instrumento facilitador do acesso ao Centro e provedor de aprendizagens
significativas em história.
O manual conduz o acesso e dinamiza de forma mais
proveitosa as visitações ao Centro, para que possam de fato contribuir com o
processo educativo e do despertar ao conhecimento histórico. É também um
instrumento de divulgação de um espaço de educação patrimonial que apesar de
ser referência na região, ainda precisa ser mais divulgado e usufruído. Ele
guia o percurso escolar no Centro partindo da própria história desse local, das
suas ações e de todo material trabalhado, exposto e ressignificado lá,
concluindo com a relação qualitativa das possibilidades entre o ensino de
história e a educação patrimonial.
Entendemos enfim, que as possibilidades do ensino de
história através da educação patrimonial e das visitações ao Centro Mulheres de
Barro apoiadas pelo Manual de visitação, são de importante relevância para a
compreensão e conhecimento histórico dos estudantes e que abrem caminho para
que eles permeiem no universo histórico que os cerca.
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________. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008.
Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.
639, de 9 de Janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação
nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática. História e Cultura Afro-Brasileira e
Indígena. Diário Oficial da União [da República Federativa do Brasil], Brasília,
DF, seção 1, p.1, 10 mar. 2008.
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Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. 2017. Disponível em: <
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CARDOSO,
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NOTA
INFORMATIVA DO IDEB 2019. INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
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NOTA
Técnica Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – Ideb. INEP - Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2019. < http://ideb.inep.gov.br/>. Acesso em:
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PARAUAPEBAS 25 anos: Formação dos primeiros bairros. Pebinha de açúcar, 2013. Disponível em: < https://pebinhadeacucar.com.br/parauapebas-25-anos-formacao-dos-primeiros-bairros/>. Acesso em: 02 de abr. de
2021.
PLANO
DE AÇÃO, ANO Base 2018. Escola Municipal de Ensino Fundamental Carlos Henrique.
Parauapebas, 2018.
POPULAÇÃO ESTIMADA: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de População e Indicadores Sociais,
Estimativas da população residente com data de referência 1o de julho de 2020
PPP,
Projeto Político Pedagógico. Escola
Municipal de Ensino Fundamental Carlos Henrique. Parauapebas, 2018.
SEMED.
Plano de Ensino de História. Diretoria
Pedagógica. Departamento de 3º e 4º Ciclos. 1º semestre, Parauapebas, 2021.
[1] Recurso construído, mas ainda não
aplicado devido as restrições impostas pela pandemia do covid 19. Contudo,
pretende-se ainda ser aplicado e posteriormente ser avaliado o seu impacto no
ensino de história local.
[2] O Mestrado Profissional em Ensino de História
(ProfHistória) é um programa de pós-graduação stricto sensu, ele tem como
objetivo proporcionar formação continuada aos docentes de História da Educação
Básica voltados para a inovação na sala de aula.
[3] A exemplo disso, em Parauapebas, a
disciplina Estudos Amazônicos foi retirada do currículo devido interesses
políticos referentes a divisão do estado do Pará.
2 “Tombamento é o principal instrumento
legal pelo qual o Estado põe sob sua guarda, para conservar e proteger, bens
culturais móveis e imóveis que, por seu valor arqueológico, etnográfico,
bibliográfico ou artístico, passam a integrar o chamado patrimônio cultural do
país. ” A Era Vargas: dos anos 20 a 1945.
Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas1/glossario/tombamento# Acesso em: 15 set.
2021.
[5] Nomenclatura utilizada no município
de Parauapebas para designar os anos iniciais do ensino fundamental, primeiro
ao quinto ano.
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